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28/09/08

Atahualpa Yupanki y Borges- El Legado (Extracto 5)

As histórias cruzadas de Borges e de una paisanita iletrada, vizinha de Yupanki, são uma belíssima lição sobre a relação do homem com o mundo. A voz profunda e grave do músico argentino, a voz de um grande narrador, ajudam a tornar verosímil a lição moral que as habita.

Ah, este vazio!


Ah, este vazio! este vazio que sinto no peito! Muitas vezes penso, se pudesses uma vez, pelo menos uma vez, tê-la nos braços, bem junto ao coração, como este vazio ficaria ocupado... [Goethe, A Paixão do Jovem Werther]

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Hoje o jovem Werther apenas poderia dizer assim:

Ah, este vazio! este vazio que sinto no peito! Quantas vezes a tive nos braços, bem junto ao coração e como este vazio me consome o coração e o ocupa...

Em pouco tempo, considerando o devir da História, passámos da ilusão romântica à desilusão. O vazio, porém, ficou.

17/09/08

Do daltonismo na história

Mas que sabemos nós do rumo da história, que segundo uma lei que a lógica não compreende, que se move e muda de direcção no seu movimento, muitas vezes num momento decisivo, por causa de minudências imponderáveis, por uma mera corrente de ar quase imperceptível, uma folha que cai no chão, uma troca de olhares no meio de um grande ajuntamento! Mesmo em retrospectiva, não podemos saber como era realmente antes e como surgiu este ou aquele acontecimento mundial. O mais rigoroso estudo do passado não chega mais perto dessa verdade que a imaginação não atinge do que, por exemplo, a disparatada afirmação que uma vez ouvi a um tal Alfonse Huyghens, diletante que vivia na capital da Bélgica e há décadas se dedicava a investigar Napoleão, segundo o qual todas as convulsões causadas nos países e reinos da Europa pelo imperador dos Franceses se deviam somente ao seu daltonismo que o impedia de distinguir o vermelho do verde. Quanto mais sangue corresse no campo de batalha, disse-me o investigador belga, mais verdes lhe pareciam os campos. [Sebald, Campo Santo, pp. 19]
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Não falta por cá Huyghens. De daltónicos também temos o stock bem provido.

14/09/08

Ainda sobre filosofia e literatura

Ainda sobre Filosofia e Literatura. É muito curioso que Kant comece o Capítulo III da Analítica dos Princípios - denominado "Do princípio da distinção de todos os objectos em geral em fenómenos e númenos", capítulo que tem um lugar central no pensamento do autor - com uma homenagem não a um filósofo, mas ao pai da literatura ocidental, a Homero. Todo o texto do post anterior ecoa as aventures de Ulisses para retornar à pátria. Que o resumo que um autor como Kant faz do seu próprio pensamento seja feito por referência à arte poética e não à filosofia ou à ciência mostra bem a natureza do núcleo central da filosofia. Por baixo da carapaça lógico-argumentativa encontra-se a dimensão da metáfora e da poesia. Nem Kant conseguiu fugir.

Um texto de Kant para o Zé Ricardo

Por causa de uma certa conversa sobre filosofia e literatura, aqui vai um texto de Kant retirado desse compêndio de insipidez literária que é, diz-se, a Crítica da Razão Pura. Ora vejamos:

«Percorremos até agora o país do entendimento puro, mas também medindo-o e fixando a cada coisa o seu lugar próprio. Mas este país é uma ilha, a que a própria natureza impõe leis imutáveis. É a terra da verdade (um nome aliciante), rodeada de um largo e proceloso oceano, verdadeiro domínio da aparência, onde muitos bancos de neblina, e muitos gelos a ponto de derreterem, dão a ilusão de novas terras e constantemente ludibriam, com falazes esperanças, o navegante que sonha com descobertas, enredando-o em aventuras, de que nunca consegue desistir nem jamais levar a cabo. Antes, porém, de nos aventurarmos a esse mar para o explorar em todas as latitudes e averiguar se há algo a esperar dele, será conveniente dar um prévio relance de olhos ao mapa da terra que vamos abandonar, para indagarmos, em primeiro lugar, se acaso não poderíamos contentar-nos, ou não teríamos, forçosamente, que o fazer, com o que ela contém, se em nenhuma parte houvesse terra firme onde assentar arraiais; e, em segundo lugar, perguntarmos a que título possuímos esse país e se podemos considerar-nos ao abrigo de quaisquer pretensões hostis.» (Kant, CRP, trad. portuguesa de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Gulbenkian, pp. 257)

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O que é extraordinário neste texto é o recurso de Kant a uma belíssima metafórica para resumir todo o seu pensamento sobre a metafísica enquanto ciência. Se alguma vez voltasse a ensinar Kant, começaria por este texto. Quando, nas aulas de Filosofia Contemporânea, o professor, Manuel do Carmo Ferreira, o atirou para a nossa frente ficámos todos de boca aberta. Alguns de nós já o tínhamos lido, mas de facto não o tínhamos "lido". São estas "pequenas" coisas que se devem aos grandes professores.

02/07/08

Entrevista a Manuel Gusmão

Os professores têm de gostar do que estão a fazer, para poderem passar esse gosto. As tentativas que se têm feito para domesticar os textos e aproximá-los dos alunos recorrem a recontextualizações que resultam em absurdos completos. Há um manual em que o poema da Sophia sobre a Camões e a tença é usado para os meninos aprenderem a escrever um requerimento a pedir uma bolsa.
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Este excerto faz parte de uma extensa entrevista do poeta Manuel Gusmão ao Público. Fala muito de poesia, mas também de política (Gusmão explica por que motivo se mantém fiel ao marxismo e ao PCP), de ensino da literatura, da crise do ensino das humanidades na universidade e do acordo ortográfico. A ler aqui.

25/06/08

A maldade de ler os clássico

Graças ao Zé Ricardo Costa, eis a razão pela qual alguns professores estão fatal e inapelavelmente fodidos:

"É muito difícil ler os clássicos; logo, a culpa é dos clássicos. Hoje o estudante faz valer a sua incapacidade como um privilégio. Eu não consigo aprender isto, portanto alguma coisa está errada nisto. E há especialmente alguma coisa errada no mau professor que quer ensinar tal matéria. Deixou de haver critérios, Mr Zuckerman, para só haver opiniões." [Philip Roth, A Mancha Humana]

01/06/08

Robert Musil - Filósofos

[Ulrich] Não era filósofo. Os filósofos são seres violentos que, como não dispõem de um exército ao seu serviço, dominam o mundo encerrando-o num sistema. Provavelmente está aí a explicação para o facto de, nas épocas de tirania, ter havido grandes filósofos, enquanto as fases de civilização e democracia avançadas não conseguem produzir uma filosofia convincente, pelo menos a avaliar pelo desapontamento em geral manifestado a esse respeito. Por isso se pratica hoje a uma escala tão assustadora a filosofia em pequenas doses, de tal modo que as lojas são o único lugar onde se pode comprar alguma coisa que não vem acompanhada de uma visão do mundo; já quanto à grande filosofia, reina uma indubitável desconfiança. [Robert Musil, O homem sem qualidades - I, pp. 346. D. Quixote, tradução de João Barrento]

21/04/08

Ruben A. - KAOS

O estatuto exigia que o mais humilde carbonário tivesse uma arma, podia ter mais. Neco sabia do arsenal, apenas ele e o sargento Martins, da total confiança das forças revolucionárias, com a garantia de promoção ao posto de oficial alferes logo no 6 de Outubro. Em cada casa de Lisboa havia um carbonário arma­do, pronto a agir na altura em que o chefe da célula, na rua ou no bairro, desse indicações para manietar o povo. A Carbonária era uma elite misturada com os trabalhadores. A lista incluía emprega­dos do comércio, lojistas, condutores e guarda-freios dos eléctricos, actores, lavradores, estudantes, agentes e guardas da Polícia Munici­pal, oficiais superiores do Exército e da Armada, cocheiros, professo­res de todos os ramos do ensino, empregados dos caminhos-de­-ferro, advogados, médicos, engenheiros, operários, comerciantes, lavradores, funcionários públicos desde contínuos a directores-gerais, activistas secretos nos ministérios, proprietários, regedores. Uma verdadeira família que modernamente se chama máffia e se orgu­lhava de contar PRIMOS de todas as classes sociais. A maçonaria rompera as estruturas de acção pacífica para entrar no campo de obter as rédeas do Poder por qualquer meio, servindo-se agora da clandestinidade dos civis armados.

14/04/08

Do valor do preconceito, da tradição, da dificuldade e do constrangimento

O pai teria dito mais ou menos: «Se deixam alguém fazer aquilo que quer, em breve baterá com a cabeça nas paredes de tanta perplexidade.» Ou então assim: «Quem pode fazer tudo o que quer acaba por não saber o que mais desejar.» Ulrich divertia-se a repetir para si próprio estas frases. Esta sabedoria ancestral parecia-lhe um pensamento muito original. É preciso que o homem se sinta primeiro limitado nas suas possibilidades, nos seus planos e sentimentos pela acção dos preconceitos, das tradições, de dificuldades e constrangimentos, como um louco num colete de forças, para que aquilo que ele consegue realizar tenha algum valor, maturidade e solidez… [Robert Musil, O homem sem qualidades I, Dom Quixote, tradução de João Barrento, pp. 46/7]

03/03/08

Maria Gabriela Llansol (1931-2008)

Morreu hoje a escritora Maria Gabriela Llansol. Ler o "in memoriam" no Da Literatura. O retrato, belíssimo, foi copiado desse mesmo blogue, e é da autoria de Vasco Rosendo.

06/02/08

Padre António Vieira (nasceu a 6 de Fevereiro de 1608)

Excerto de um dos seus mais famosos sermões:
"Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo seu costume quase se não sente. Por esta causa não falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelo encaminhar sempre à lembrança destes dois fins." [Sermão de Santo António aos Peixes. Ler todo o sermão aqui.]

26/11/07

Apuleio - O burro de ouro

A Livros Cotovia continua a sua excepcional colecção de traduções de clássicos da literatura greco-latina. Depois de Homero (Ilíada e Odisseia), de Ovídio (Arte de Amar, Amores e Metamorfoses), de uma colectânea de Poesia Grega e de Petrónio (Satyricon), chegou a vez de Apuleio e o seu O burro de ouro.

O tradutor é Delfim Leão, autor da excelente tradução do Satyricon, que assina também a introdução. Estas duas obras, Satyricon e O burro de ouro, são aquelas que, no âmbito da literatura clássica, mais se aproximam do chamado romance moderno, isto é, do romance que descende do D. Quixote de Cervantes.

O melhor será acompanhar a estranha metamorfose do jovem Lúcio e as suas múltiplas aventura. Entre o erotismo e um certo gnosticismo, o livro parece adequar-se perfeitamente ao gosto contemporâneo, tão interessado em sexo e viagens iniciáticas. A edição, aliás como a das outras obras, é esmerada e o livro acaba por ser, para além de uma magnífica obra, um belo objecto.

10/10/07

Devoções heideggarianas

Heidegger foi um charlatão filosófico, que apenas vendia artigos roubados, tudo o que vem de Heidegger é em segunda mão, ele era e é o protótipo do pensador de imitação, a quem faltava tudo, mas realmente mesmo tudo, para pensar por si próprio. O método de Heidegger consistia em fazer de grandes pensamentos alheios, com a maior falta de escrúpulos, pequenos pensamentos próprios, assim é que é realmente. Heidegger reduziu tudo o que é grande de maneira a torná-lo germanicamente possível, compreende, germanicamente possível, disse Reger. Heidegger é o pequeno-burguês da filosofia alemã, que pôs à filosofia alemã o seu barrete de dormir «kitschig», o barrete preto e «kitschig» que Heidegger usava sempre, em todas as ocasiões. Heidegger é o filósofo de chinelos e barrete de dormir dos alemães, nada mais. [Thomas Bernhard, Antigos Mestres - comédia. Tradução de José Palma Caetano. Assírio & Alvim, pp. 94/95]

03/10/07

A expulsão do poeta

Os chamados Antigos Mestres serviram sempre só o Estado ou a Igreja, o que vem a dar no mesmo, diz Reger com frequência, um im­perador ou um papa, um duque ou um arcebispo. Assim como o chamado homem livre é uma utopia, o chamado artista livre foi também sempre uma utopia, um dislate, diz Reger muitas vezes. Os artistas, os chamados grandes artistas, diz Reger, penso eu, são, além disso, as pessoas com menos escrúpulos, são ainda muito menos escrupulosos que os políticos. Os ar­tistas são os mais hipócritas, ainda muito mais hipócritas que os políticos, isto é, os artistas da arte são ainda muito mais hipócritas que os artistas do Estado, oiço eu agora Reger dizer de novo. Esta arte vira-se sempre para o Todo-poderoso e para os poderosos e afasta-se do mundo, diz Reger muitas vezes, é esta a sua infâmia. É mesquinha esta arte, mais nada, oiço eu agora Reger dizer ontem, enquanto hoje o observo da Sala Sebastiano. Porque é que realmente os pintores pintam, quando existe a natureza? perguntou ontem Reger uma vez mais a si próprio. Até a obra de arte mais extraordinária constitui ape­nas um esforço mesquinho, inteiramente absurdo e inútil, para imitar e mesmo macaquear a natureza, disse ele. O que é o rosto pintado por Rembrandt da sua mãe em comparação com o rosto real da minha mãe? perguntou ele de novo. O que são as margens do Danúbio, por onde eu posso andar enquanto as posso ver, em comparação com as pintadas? disse ele. Não há nada mais asqueroso para mim, disse ele ontem, que o poder pintado. Pintura do poder, mais nada, disse ele. Fixar, dizem as pessoas, documentar, mas o certo é que, como nós sabemos, tudo isso é mentido, falso, só a falsidade e a mentira é que são fixadas e documentadas, a posteridade só tem falsi­dade e mentira penduradas nas paredes, só falsidade e mentira se encontram nos livros que os chamados grandes escritores nos legaram, só falsidade e mentira nos quadros que estão pendurados aqui nestas paredes. [Thomas Bernhard, Antigos Mestres - comédia. Tradução de José Palma Caetano, Assírio & Alvim]

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Li esta passagem de Bernhard logo a seguir a ter lido o comentário do Zé Ricardo ao post sobre o blogue de Rodrigo Constantino. O Zé refere a expulsão, por Platão, do poeta, isto é, do artista em geral, da cidade. Há uma tensão curiosa entre o texto platónico e o de Bernhard. Em ambos existe a denúncia da mentira da arte, da falsificação da realidade. Mas Bernhard talvez nos permita perceber melhor Platão. Por que razão se deverá expulsar o artista da cidade? Porque ele reforça o poder, a dominação fundada na falsificação, através da ficcionalização. Em última análise, o artista, como encenador do poder, robustece a tirania. O artista emerge então como inimigo da liberdade.

Por aqui talvez possamos pensar mais fecundamente a questão da liberdade a partir de Platão. Talvez Platão, ao contrário do que pensa Popper, se preocupe, em tudo o que pensa, apenas e só com a questão da liberdade, com a euleutéria, o estado do homem livre. Acredito mesmo que, para pensar a liberdade, Platão seja muito mais fundamental do que Popper e os liberais. Mas sou suspeito, Platão é, para mim, o maior dos sóis que habitam a galáxia dos filósofos e dos artistas.

Por outro lado, há mais uma coisa que aproxima Bernhard e Platão: são ambos grandes romancistas, quero dizer: produtores de ficções, poetas, em última análise. Nietzsche tem razão, o diálogo platónico é a antecâmara de Cervantes. A expulsão, suprema ironia, vira-se contra eles, Bernhard e Platão. Há, no espírito sisudo dos grandes filósofos, uma forte e quase sempre não notada ironia. Platão que se expulsa a si mesmo da cidade, fingindo que o filósofo não é poeta, que não compõe ficções, coisa que ele fez durante toda a vida; Hegel, por exemplo, fazendo crer que Deus, o Absoluto falava pela sua boca, isto é, pela sua Lógica. O que coloca a questão: como ler estes refinados ficcionistas, estes supremos ironizadores?

É verdade que prefiro viver sob Guterres ou Cavaco do que sob Salazar, mas isso não me permite estabelecer uma analogia dizendo que a “Sociedade Aberta” de Popper me instrui melhor sobre a liberdade e a defende melhor do que a República platónica. Estou convencido do contrário.

02/10/07

O erro

O que, não obstante, tão intensamente me oprime é que uma pessoa com uma tal capacidade de apreensão como era a minha mulher, com todo o enorme saber que eu lhe transmiti, tenha morrido e tenha, portanto, levado consigo na morte esse enorme saber, isso é que é incrível, essa incrível enormidade é ainda mais incrível que o facto de ela ter morrido, disse ele. Nós enche­mos uma pessoa assim com tudo o que tiramos de nós e essa pessoa abandona-nos, é-nos roubada pela morte, para sempre, disse ele, e a isso acresce a sua forma abrupta, o facto de não termos previsto a morte dessa pessoa, nem um só momento previ a morte da minha mulher, olhava-a como se ela tivesse uma vida eterna, nunca pensei na sua morte, disse ele, como se ela vivesse realmente com o meu saber pelo infinito fora como in­finito, segundo as suas palavras. De facto uma morte precipita­da, disse de. Tomamos uma pessoa dessas para a eternidade e aí é que está o erro. Se eu tivesse sabido que a morte ma leva­ria, teria procedido de forma completamente diferente, mas não sabia que ela iria morrer antes de mim e agi de uma ma­neira inteiramente absurda, como se ela existisse infinitamente pelo infinito fora, quando ela não tinha sido feita para o infini­to, mas sim para o finito, como todos nós. Só quando amamos uma pessoa com um amor tão irreprimível como aquele com que eu amei a minha mulher, acreditamos de facto que ela viva eternamente e pelo infinito fora. [Thomas Bernhard, Antigos Mestres - comédia. Tradução de José Palma Caetano, Assírio & Alvim]
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É sempre espantado e deslumbrado, perdoe-se-me o excesso vocabular, que leio Thomas Bernhard.

01/10/07

Pedro Mexia - Senhor Fantasma

Há dias falei, a propósito da blogosfera, no poeta Pedro Mexia. Disse que não conhecia o seu trabalho poético, mas que estava convencido de andar a perder alguma coisa. Prometi que, na primeira oportunidade, compraria os seus livros. Apenas encontrei um, o último, Senhor Fantasma. Confirmei a intuição. Procurarei os outros livros. Dois exemplos da sua poesia:

NO MEIO DO CAMINHO
[decalque de Carlos Drummond de Andrade]

No meio do caminho havia uma pedra,
uma pedra no caminho, havia um coração
de pedra, um nome na pedra, pedro
sobre esta pedra, pedra por dentro.

No meio do caminho sempre essa memória
de pedra, a pedra a meio do caminho,
essa pedra no meio e quase fim do caminho.

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Ou então este belo poema:

Primeiro apaguei o frio,
depois a fogueira,
em seguida a lenha,
só não pude riscar da terra
o lugar onde estava sentado.

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O livro foi editado em 2007, pela Oceanos.

19/09/07

Da idiotia do encómio

Um encómio idiota que certa gente de cultura democrática faz a Aquilino Ribeiro é o que sublinha a opinião de Salazar, que o achava um detestável oposicionista mas um grande escritor. Desde quando a opinião de Salazar sobre a literatura tem qualquer valor?

06/08/07

Colecção COW-BOY

Há um momento em que se dá a transição da leitura de histórias aos quadradinhos (livros de cow-boys) para histórias em texto corrido. Mais do que as aventuras da Enid Blyton, a colecção Cowboy, que apareceu em 1961, ainda antes de aprender a ler, fez essa mediação entre a literatura de raiz popular e as leituras eruditas. A colecção Cowboy era composta por livrinhos com 64 páginas, páginas pequenas, e 6 ilustrações. Li dezenas de historietas destas, não apenas da colecção referida, como de outras que apareceram a partir do sucesso desta. Lembro-me da colecção 6 Balas e Fúria de Bravos. Penso que ainda havia uma outra, mas já não me recordo do nome.

Eram histórias do oeste, marcadas por um problema fundamental: o da justiça. Havia sempre um cow-boy justiceiro, um bandido, por norma, pessoa influente, e uma rapariga que casava, quando casava, com o herói. Era um mundo simples o daqueles dias. Às vezes, confundimos a simplicidade com a bondade, mas não é a mesma coisa. Naqueles tempos, não havia professor que não franzisse o sobrolho se descobria um aluno a ler este tipo de literatura.

30/07/07

Pinóquio

Os primeiros livros que li, pelo menos de que tenho memória, são os do Pinóquio. Nestas investigações de Verão, encontrei esta capa editado pela Agência Portuguesa de Revistas. Ora a minha memória remetia para outra editora, a Romano Torres, julgo que publicava os livros de Walter Scott. Procurei pela Internet e lá encontrei referência a diversas aventuras de Pinóquio, mas não as originais de Carlo Collodi, entre elas uma de que me lembro muito bem de ter lido: Pinóquio no México, de um tal José Rosado (não consegui encontrar capa na Internet e esses livros há muito se foram).

O curioso é que estes livros eram, em Torres Novas, comprados numa mercearia, o Machado & Lopes, era assim mesmo que se dizia, no singular e no masculino, que além das mercearias propriamente ditas, vendia fazendas e ainda fazia de livraria, à qual dedicava uma das suas montras, perante a qual passei longos instantes a projectar os livros a comprar e a ler, nesse Portugal de província no final dos anos 60 e início dos 70. Atesto que tudo isto é verdade, pois, agora que olho o espelho, vejo que o nariz não me cresceu.