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11/12/09

Um equívoco semântico


Aquilo a que hoje se chama universidade só por equívoco tem esse nome. Segundo os dirigentes empresariais, os jovens licenciados correspondem cada vez mais ao que as empresas procuram. Merece ser lido o artigo do i. Ele é, apesar da aparência em contrário, uma demonstração da tese que se defende aqui. A universidade, contrariamente ao que se pensa, não deve servir para fornecer mão-de-obra, mesmo que de carácter cognitivo, às empresas. A universidade significa o lugar onde se educa alguém para se elevar a um ponto de vista universal. A preparação para o mercado de trabalho, para as empresas, é apenas uma preparação particular para funções particulares, mesmo que estas sejam amplas. Não se está aqui a argumentar a favor do desaparecimento dessa formação. Pelo contrário, essa formação deve ser ainda mais ampla, abranger mais pessoas e ter melhor qualidade. Não lhe chamemos, porém, aquilo que ela não é. A universidade, por seu lado, deveria encolher drasticamente, concentrando-se nas actividades de produção de saber. As universidades não se devem aproximar das empresas, devem mesmo fugir delas a sete pés, caso não queiram perverter o seu sentido. No entanto, as instituições de ensino que preparam jovens para serem engenheiros, economistas, gestores, designers, etc. devem estar em íntima relação com o mundo empresarial.  Chamar-lhes, porém, universidades é um lamentável equívoco semântico, cujas consequências serão a destruição do que resta da verdadeira universidade. É o que acontece no mundo ocidental, onde a universidade, aquela que ainda trata de questões universais, se rege agora pelo particularismo das empresas privadas. Um dia destes, aquilo a que se chama universidade não será mais do que uma espécie de prolongamento das antigas escolas industriais e comerciais.

10/12/09

René Girard - Imitação



Não há nada ou quase nada, nos comportamentos humanos, que não seja aprendido, e toda a aprendizagem reenvia para a imitação. Se os homens, de repente, cessassem de imitar, todas as formas culturais desapareceriam. Os neurologistas lembram-nos frquentemente que o cérebro é uma enorme máquina de imitar. [Girard, René (1978). Des Choses Cachées Depuis la Fundation du Monde. Éditions Grasset & Fasquele, pp. 15]
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Eis o conceito central da aprendizagem, imitação. Daí a importância do mestre, a quem discípulo deve imitar, até ao dia que, capacitado, pode "matá-lo" e tornar-se assim em mestre e exemplo a imitar. O conceito de mimésis, já em Aristóteles, era um conceito complexo. A real imitação nunca é uma reprodução mecânica do modelo. Este, porém, constitui-se no conteúdo noemático, para falar à maneira da fenomenologia, que a intencionalidade do discípulo visa. Esta intencionalidade implica uma configuração complexa, de gestos e atitudes, para lograr a imitação, implica um trabalho árduo para alcançar o modelo. Este trabalho, porém, tem uma função surpreendentemente libertadora. Aquele que trabalha arduamente para imitar vai descobrir as suas próprias forças e o seu próprio caminho. Assim, se libertará do modelo.

Aquilo que no ensino de hoje se propõe, porém, é o contrário disto. A imitação, e o concomitante trabalho árduo, foram banidos. A criança e o jovem não devem imitar. Terão de ser criativos e de ser inovadores. Não há maior armadilha que se possa fazer a uma criança ou a um jovem que exigir que ele seja criativo e inovador (fazem-me rir as idiotices - repito para que não restem dúvidas, idiotices - que se encontram em muitos documentos de avaliação de alunos, paridos por escolas, professores e organismos do ministério, sobre avaliar criatividades e espíritos de inovação). A criatividade e a inovação só podem nascer após um longo processo mimético. Como pode um sistema de ensino que baniu os modelos a imitar, que desprezou o acto mimético e o complexo trabalho que ele requer, exigir, com tamanha falta de pudor e de probidade intelectual, que crianças e jovens sejam criativos e inovadores?

09/12/09

A mistificação das competências



Graças à leitora Alice N, tive acesso a este documento. É uma interessante e reflexão e desmontagem do chamado ensino por competências. Torna evidente os interesses que se escondem na retórica educativa do ensino por competências e mostram como esse ensino desvaloriza o saber e promove a desigualdade social, ao contrário do que o discurso político anuncia.

O papel essencial de Cassandra



Eu sei que da parte do governo, e mesmo da oposição, se olha com complacência as tomadas de posição de Medina Carreira. São diatribes de um velho que perdeu o contacto com a realidade, pensa-se, dentro da classe política, para aliviar o peso da consciência, se ainda há algum. No entanto, aquilo que o antigo ministro das Finanças diz faz todo o sentido (ler aqui ou aqui). A crítica radical que faz ao programa Novas Oportunidades só peca por ser demasiado benévola. Aquilo é, para o país, bem pior do que uma simples «aldrabice» e uma simples «trafulhice». Também a crítica que faz à educação é demasiado benevolente. A educação não está uma «miséria». A educação está pervertida. Os princípios que a orientam estão completamente errados. Também a crítica ao parlamento e aos parlamentares, apesar da contundência, acaba por ser suave. O problema não é só o facto de ninguém, com medo do chefe partidário, não miar. O problema central é que os representantes deixaram efectivamente de representar os representados. Isto significa que a democracia representativa está morta. Seja como for, o papel de Cassandra que Medina Carreira decidiu vestir é social e politicamente fundamental, pese o desagrado das múltiplas Clitmnestras que por aí há.

Escola e Sociedade - a Deriva da Razão



No âmbito do Fórum Cidadania, organização conjunta da Escola Secundária Maria Lamas e da CIVILIS, este blogger proferiu a 23 de Novembro pp., a conferência com o título Escola e Sociedade - a Deriva da Razão. Publica-se aqui e agora o abstract. Quando o texto desenvolvido da conferência estiver disponível on-line, far-se-á daqui o respectivo link.

Discute-se a sociedade que se está a construir a partir de uma visão da relação entre escola e sociedade. Tomando como ponto de partida uma descrição fenomenológica dos valores dos alunos relativamente à probidade do desempenho escolar, faz-se uma descrição das figuras sociais dominantes na sociedade portuguesa actual – a esperteza sem regras morais e cívicas, o desânimo e fuga dos melhores, a lamentação dos altos responsáveis. Assim caracterizada a sociedade, argumenta-se criticamente a ideologia da escola aberta à comunidade, nomeadamente a visão da escola como continuidade da família, a sua permeabilidade aos valores e sub-culturas locais, e o imiscuir, na instituição, dos poderes fácticos estranhos ao ethos escolar. Argumenta-se, depois, a necessidade de caracterizar a escola como espaço público fechado. Parte-se de um argumento de Michael Walzer sobre a escola japonesa do pós-guerra e de uma descrição fenomenológica da axiologia escolar, para defender que a escola deve ser esse espaço público fechado devido às características específicas da instituição (um lugar onde menores e maiores se encontram para os primeiros se elevarem à universalidade da razão) e à necessidade de preservar o currículo a transmitir da influência dos interesses privados, sejam familiares ou de natureza económica, social e política. Por fim, propor-se-á as linhas gerais de uma política conservadora de resistência e insistência que vise conservar o papel primordial da razão perante a deriva niilista actual.

28/11/09

A víbora no peito e a morte da liberdade



Depois de contar uma história desagradável sobre a estranha relação entre um banco privado e o jornal Sol, motivada por uma notícia pouco favorável ao governo, Rui Ramos, na crónica de hoje no Correio da Manhã, argumenta que o problema, o da punição de quem não baixa  a cabeça perante o poder, não é só deste nem só com este governo. Conclui o artigo dizendo: «Há trinta anos que andamos a fingir que pode haver direito e pluralismo onde quem fala corre o risco de ser castigado e onde para fazer negócios é preciso pôr dinheiro em envelopes. A democracia portuguesa vive com uma víbora sobre o peito. Só não nos morde se estivermos muito quietinhos e formos bem comportados. É assim que queremos viver, quietinhos e bem comportados?»

Toda a sociedade portuguesa está, há muito, absolutamente domesticada. Alguns redutos de liberdade de expressão e de crítica existem ainda nas profissões liberais, mas poucos, e nas universidades, cada vez menos. Até ao último governo de Sócrates, os professores do ensino não superior representavam outro reduto onde a liberdade de expressão e de crítica era possível. Uma liberdade que, por essa província fora, era transferida para a esfera pública e política dos municípios, onde muitos professores tinham voz activa, tanto na vida política como na imprensa local. Mas o efeito conjugado do Estatuto da Carreira Docente, da Avaliação de Professores e da lei sobre Gestão Escolar destruiu esse reduto. Toda a gente percebe que o melhor é estar caladinho, pois há que evitar "chatices". Como nos tempos do dr. Salazar ou do prof. Caetano.

Se o debate educativo dentro das escolas era já pobre, tornou-se inexistente. As escolas são, ao nível do debate de ideias, mausoléus entregues a curadores e regedores, dos quais se tem medo ou a quem se quer agradar de forma abjecta. A indigência intelectual cresce. Muitos dos dirigentes escolares, por certo, não gostam do papel e não se sentem bem nesta fotografia de família. Mas o papel foi-lhes entregue. Mais tarde ou mais cedo, eles ou os próximos a vir, em caso de necessidade lá farão exercício do arbítrio com que foram investidos, lá saberão encontrar os mecanismos maravilhosos para calar alguma voz mais crítica e descuidada, mecanismos que políticos inimigos da liberdade e do espírito crítico lhe puseram, sem qualquer sobressalto na consciência, nas mãos.

Os professores, para além das manifestações generalistas contra o ECD e a avaliação, não passam já de uma massa amorfa, há boas excepções, claro,  sem espírito crítico e, como todos os outros portugueses, amedrontados com as indisposições ou os fluxos hormonais das chefias e daqui  a uns tempos do régulo municipal. Quem está hoje, numa escola, disponível para chamar a atenção para o que possa haver de errado, do ponto de vista educativo, na orientação  de um director executivo? Quem, sendo professor, vai amanhã criticar um Presidente de Câmara? É de um professorado assim que, depois, os demagogos habituais e os psicólogos de serviço exigem que formem cidadãos críticos e reflexivos, e outras idiotices inomináveis do género. A liberdade fica para os aposentados, por enquanto. Mas isso significa apenas que a liberdade se tornou decrépita.

Os portugueses nunca amaram especialmente a liberdade. Agora, e eu estou a medir bem as palavras, os portugueses começam a ter medo de ser livres. Uma sociedade civil frágil. Governos locais e centrais demasiado fortes, governos que colonizam o aparelho de estado e das autarquias, governos que, em todos os lados e independentemente dos partidos a que pertençam, não têm a medida do respeito pelo pensar alheio. Portugal definha num pântano e na viscosidade que se apossou, mais uma vez, da sociedade portuguesa. Os melhores e os mais livres resta-lhes um caminho: a porta de saída. A liberdade morre em cada hora que passa. Morre por restrição subreptícia e por falta de exercício. A víbora ameça morder-nos no peito, é um facto. Mas à liberdade já a víbora envenenou há muito.

26/11/09

Qualidades



Isabel Alçada quer sistema de avaliação de professores que premeie esforço e qualidade. Estas piedosas intenções também faziam parte da retórica da sua antecessora, a qual, como se viu, arquitectou um sistema completamente absurdo. O importante não está em dizer que se quer premiar a qualidade. Isso é uma trivialidade. O importante é como se define a qualidade. Também a antecessora premiava uma certa qualidade, só que não era aquela que permitia aos alunos aprender. Definir o que são professores de qualidade é o primeiro passo, para se descobrir se a intenção é boa, ou se não passa de mais uma aventura num túnel sem luz ao fundo.

20/11/09

A virtude de Henry



As palavras de Thierry Henry deveriam passar em todas as escolas portuguesas. Deveriam suscitar análise, discussão, transformar-se em exemplo. Por que se envergonha um homem que contribuiu, com a sua batota, para o apuramento da selecção do seu país para o mundial? Mesmo que nada se possa fazer em relação à Irlanda, a confissão virtuosa de Henry é absolutamente excepcional. Aquilo que o jogador diz é incompreensível para a generalidade dos nossos alunos, para não falar para a generalidade dos portugueses. E isso deveria preocupar-nos.

14/11/09

Serviço militar obrigatório



Um dos temas presentes na crónica de ontem, no Público, de Luís Campos e Cunha, e aqui citada, é o da disciplina. Pertenço a uma geração que assistiu e participou na abolição do valor da disciplina e, concomitantemente, desvalorizou até ao irrisório as virtudes militares e os seus valores. Não fui imune ao sortilégio. Há muitos anos, porém, que reconheço o elevado valor moral e social dos valores da instituição militar. Nunca concordei com a abolição do serviço militar obrigatório, pelo contrário. Ele deveria, nos dias de hoje, ser universal, abranger rapazes e raparigas. Seriam dispensáveis os 16 meses que me couberam em sorte, mas uma espécie de recruta prolongada, de seis meses, na qual todos sem excepção seriam iguais, não faria mal a ninguém. Seria um momento, se bem pensado e organizado como é apanágio da instituição militar, de alta qualidade na formação cívica, social, patriótica e moral. Depois de uma escolaridade anarquizante e mesmo de um ensino superior quase igual, a disciplina da instituição militar acabaria por ajudar uma extensa maioria de jovens. Sei que isto não é politicamente correcto afirmar, ainda por cima por alguém que pertence a uma geração que fugiu do cumprimento do dever militar através de múltiplos álibis. Mas 25 anos como professor, para além da experiência própria na instituição militar, corrigem muitos preconceitos e ideias feitas. O serviço militar obrigatório não seria apenas uma contribuição para solidificar o espírito patriótico e a noção de dever, mas também uma tábua de salvação para muitos jovens que andam pura e simplesmente à deriva.  A primeira coisa que deveria acabar era a objecção de consciência. Pode cumprir-se o dever militar sem ter de pegar em armas. O essencial é a rotina, os valores, a disciplina irremitente, o deitar e levantar cedo, o ter de fazer a cama, o de estar impecavelmente fardado, o aprender a falar com o superior hierárquico, o ter de obedecer, o espírito de entre-ajuda em situações difíceis, o reconhecimento do papel do esforço. Isto é, tudo aquilo que deveria ser já o apanágio das escolas, mas que o corpo político por irresponsabilidade, oportunismo, má-fé e pusilanimidade, com a cumplicidade de muitos professores, diga-se de passagem, decretou que acabasse, para infelicidade de muita gente.

12/11/09

Ministra da Educação



Acabei de ver, na RTP, a entrevista dada pela Ministra da Educação a Judite de Sousa. Depois da Bruxa Má, veio a Branca de Neve. Antes assim, mas veremos o que tempo, esse grande escultor, nos vai ensinar.

10/11/09

Educação Sexual



Não percebo a pressa que há em disseminar pelas escolas essa disciplina retrato do niilismo educativo, Educação Sexual. A única coisa que se deveria dizer seria para os jovens aguardarem pelos 70 anos. Segundo a opinião de Jane Fonda, o sexo aos setenta e um é melhor do que antes. Sendo assim, e como não se presume que a escolaridade obrigatória se prolongue até tão tarde, o melhor mesmo seria ensinar gramática às crianças. Não é afrodisíaca? Depende. Talvez a morfologia não seja particularmente interessante. Mas se se aprender a metaforizar, talvez se compreenda que da morfologia das palavras à morfologia dos corpos a distância não é assim tão grande. Por outro lado, a fonética é imediatamente pregnante no acto sexual. O estudo dos sons, da sua emissão e recepção, não deixaria de fornecer matéria suficiente para a reflexão sobre a praxis sexual. Incontornável, porém, é a sintaxe. A arte da combinação das palavras numa frase é uma excelente propedêutica para a combinação dos corpos numa cama, a reflexão sobre o que deve vir antes e o que deverá vir depois, as possibilidades de alteração da ordem natural, etc. Como se vê, ensinando seriamente gramática aos alunos, fornecer-se-ia os instrumentos básicos de uma sexualidade realizada e feliz. Não há pois sexualidade que não tenha a sua grámatica, que não mobilize os conhecimentos morfológicos, que não dependa da fonética, que não utilize as regras da sintaxe. Mesmo que nem todos fossem poetas do sexo, pelo menos saberiam escrever e falar, o mínimo exigido para haver comunicação decente. E o sexo não é comunicação? Se se continuar a insistir na Educação Sexual e na Educação Cívica e no Estudo Acompanhado e na Área de Projecto, os alunos nunca terão tempo para aprender a complexidade do saber gramatical. Nem aos setenta anos poderão dizer que o sexo é melhor do que antes. Faltar-lhes-á a gramática que superintende um bom desempenho na linguagem do amor e fornece o padrão de avaliação da performance.

03/11/09

Na morte de Claude Lévy-Strauss



Foi hoje anunciada a morte do antropólogo Claude Lévy-Strauss. Tinha 100 anos. Foi uma das figurantes marcantes, no campo intelectual, do século XX. Como homenagem, deixo aqui os três últimos parágrafos de um texto de 1975, um texto que todos os professores, pais, pedagogos e gente interessada em educação, inclusive ministros socialistas, deveriam ler uma e outra vez até terem percebido a simples mensagem que ele contém. O texto denomina-se Palavras Retardatárias sobre a Criança Criadora. Perdoe-se-me a extensão da citação.

Os nossos filhos nascem e crescem num mundo feito por nós, que antecipa as suas necessidades, previne as suas perguntas, os encharca de soluções. A este respeito, não vejo diferença entre os produtos industriais que nos inundam e os «museus imaginários» que, sob a forma de colecções de livros de bolso, de álbuns de reproduções e de exposições temporárias em jacto contínuo desvitalizam e embotam o gosto, minimizam o esforço, baralham o saber: vãs tentativas para acalmar o apetite bulímico de um público sobre o qual desabam desordenadamente todas as produções espirituais da humanidade. Que, neste mundo de facilidades e desperdício, a escola continue a ser o único sítio em que é preciso ter trabalho, sofrer uma disciplina, passar por vexames, progredir passo a passo, viver, como se costuma dizer, «no duro», não é coisa que as crianças aceitem, pois já não a podem compreender. Daí a desmoralização que as invade, quando sofrem toda a espécie de coacções para as quais tanto a família como a sociedade não as prepararam e as consequências por vezes trágicas desta inadaptação.

Resta saber se é a escola que está errada, se é uma sociedade que perde cada vez mais e todos os dias o sentido da sua função. Ao pormos o problema da criança criadora, enganamo-nos no tema: porque somos nós próprios, tornados consumidores desenfreados, quem se mostra cada vez menos capaz de criar. Angustiados pela nossa carência, esperamos a vinda do homem criador. E como não nos apercebemos dele em parte alguma, viramo-nos, em desespero de causa, para os nossos filhos.

Temamos, no entanto, que, ao sacrificarmos as rudes necessidades da aprendizagem aos nossos sonhos egoístas, acabemos por lançar a escola pela borda fora, com tudo aquilo que ela ainda representa, e que venhamos a privar os nossos sucessores do pouco que ainda permanece sólido e substancial na herança que podemos deixar-lhes. Seria aberrante pretender iniciar os nossos filhos na criação pelas vias da arte, recorrendo a métodos pedagógicos inspirados pelos frutos ilusórios da nossa esterilidade. Reconheçamos ao menos que procuramos nisso uma consolação: ao fazermos da criança a medida do criador, damos a nós próprios uma desculpa por termos deixado a arte regredir ao estádio do jogo, mas sem termos tido o cuidado de não abrirmos a porta a confusões muito mais graves entre o jogo e os outros aspectos sérios da vida. Ai de nós, nem tudo na vida é jogo. É aos jovens espíritos que nos incumbe formar, que se fica a dever esta lição fundamental. Lição que nos convidam a calar para a satisfação, na verdade bem ingénua, de justificar aquilo a que ainda se chama arte pelos exercícios atraentes que, sob o colorido de reforma pedagógica, proporcionam às crianças; exercícios em que, no entanto, os próprios adultos podem encontrar — e nada mais — um muito vivo agrado. [Claude Lévy-Strauss, O Olhar Distanciado]

31/10/09

Formação científica



O professor Jaime Carvalho e Silva, futuro secretário-geral da Comissão Internacional de Instrução Matemática, defendeu a necessidade do país investir mais na formação de professores de Matemática e de ampliar as horas de ensino da disciplina nos currículos. O mais importante daquilo que disse, mas provavelmente será aquilo que vai ser rapidamente posto de lado, refere-se, todavia, à necessidade de formação científica: “Além da língua, há uma cultura comum e problemas associados a essa cultura, como o de se considerar que a formação científica não é importante e que conseguimos improvisar o que será necessário”.

Aqui está um dos problemas cruciais do ensino em Portugal. São poucos aqueles que acham necessária uma maior e mais efectiva formação científica dos docentes. Isto começa no Ministério da Educação e acaba nos próprios professores. Mas a verdade é que o que acontece é o improviso a partir do manual. Os responsáveis julgam que o problema é pedagógico, mas não é. É um problema de domínio científico. Quem não conhece com profundidade as matérias que ensina, e muito para além delas, não tem material para dar conteúdo à imaginação didáctica que deve presidir ao trabalho docente. Mas explicar isto é uma tarefa inglória e destituída de sentido.

Reconhecimento


Razão tem Carvalho da Silva ao dizer sobre Valter Lemos como Secretário de Estado do Empego e Formação Profissional: «É um sinal absolutamente desastroso. Acho que não exagerarei se disser que, para o comum dos sindicalistas e dos trabalhadores, isso pode ser visto como uma autêntica provocação

Mas a lamentação do sindicalista não é o mais importante. O relevante é o reconhecimento de Valter Lemos e do seu trabalho na Educação por Sócrates. Isto significa apenas uma coisa. O actual governo fará o que lhe for possível para manter os desmandos que o anterior introduziu na educação. O essencial do descalabro é para manter.

28/10/09

Secretários de Estado da Educação

Já há secretários de Estado. Confirmação do previsível, portanto mau prenúncio. O eduquês em grande força, agora com origem em Aveiro. Alexandre Ventura passa do Conselho Científico para a Avaliação de Professores para o governo. Uma tentativa desesperada de assegurar que o descalabro nas escolas se mantém. Para compensar, há os números de fogo de artifício, tipo Magalhães. João Mata transita do Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação e foi coordenador do Plano Tecnológico da Educação. Estamos conversados.

21/10/09

Isabel Alçada, com papas e bolos...



Nas especulações sobre o futuro governo feitas pelo i, o nome de Isabel Alçada é dado com certo na Educação. Aqueles que se interessam pelas questões educativas apenas se devem preocupar se o futuro ministo, seja ele quem for, vem para manter e continuar o trabalho de destruição da escola pública incrementado por Lurdes Rodrigues, ou se vem para tentar pôr cobro ao descalabro que dura há quase cinco anos. Se a pessoa é simpática e bonita, ou se escreve livros para criancinhas, ou se faz o pino às três da tarde, tudo isso é irrelevante. Vai continuar o predomínio do eduquês nas orientações da educação? Vai continuar a vigorar uma visão burocrática da escola em vez de uma visão de escola como centro de saber? O Estatuto do Aluno vai ser mantido como está? O Estatuto da Carreira Docente e a divisão da carreira em duas, bem como o modelo de avaliação de professores são para manter? O modelo de gestão, que submete o ensino e os professores, aos obscuros desígnios da "comunidade" local é para continuar? Aqui estão as matérias que interessam, o resto são papas e bolos para enganar tolos.

20/10/09

Não esquecer



Vi há pouco esta fotografia no Público e pensei que há coisas que um professor não deve esquecer. Não me estou a referir apenas aos desmandos de Lurdes Rodrigues na educação. A cobertura política que Cavaco Silva sempre deu às medidas que desfizeram a escola pública portuguesa também não deve ser esquecida.

16/10/09

Sem retorno



A senhora ministra da educação afirmou hoje que as escolas enfrentam “obstáculos e dificuldades” sem paralelo na história do sector para conseguirem responder ao alargamento da escolaridade obrigatória para os 12 anos. Enumerou algumas dificuldades, incensou, embora enviesadamente, a medida por si tomada e não esqueceu a banalidade. "Não podemos desistir de nenhum dos nossos jovens, nenhuma criança, adolescente ou jovem pode ser deixado para trás”. Tudo isto é muito bonito e comovedor. Pena é que a senhora tenha criado tão grandes obstáculos à disciplina nas escolas, que tenha desprezado o problema, tenha desautorizado os professores e acobertado os comportamentos menos adequados dos alunos. Há uma coisa, porém, que ninguém diz. Os alunos que querem trabalhar e aprender, mas cujas famílias não têm dinheiro para colégios privados, ou não os há onde vivem, quem os protege? Esta medida, por mais encantadora que seja, vai criar muitos problemas não às escolas, mas a esses alunos que precisam, para aprender, de um ambiente escolar saudável. É muito bonito dizer que há grandes desafios para as escolas enfrentarem, como se tudo estivesse na mão dos homens. Todos nós sabemos como isto vai acabar. Quem se interessa, já viu este filme no estrangeiro. Como em certos países ocidentais, a escola pública portuguesa vai definhar no caos, na indisciplina, na irrelevância. Em França, por exemplo, começaram agora a pagar a esse adoráveis adolescentes para ver se eles concordam em ir às aulas. A senhora ministra lançou a confusão, da qual não haverá retorno, e vai-se embora, esperemos.

Pena é que o senhor Mário Nogueira também não a acompanhe. O dirigente da Fenprof interpretou as palavras da ministra como “uma espécie de testamento político”. A ministra “conseguiu fazer um discurso completo de despedida sem ter uma referência elogiosa para os professores, o que também não é de espantar, foi assim todo o tempo, durante estes quatro anos”. Meus Deus, perante a anunciação do caos que vai acontecer em muitas escolas, a única coisa que lhe ocorre é que a senhora ministra, que nem mãe castigadora, não fez uma referência elogiosa aos professores. Parece que se sente abandonado. Se a ministra me elogiasse, eu desconfiaria imediatamente da qualidade do meu trabalho. Há coisas que só a psicanálise explica.

12/10/09

Comparar o comparável



Chegou o momento anual de excitação jornalística com os rankings de exames. Sempre defendi a publicitação dos resultados e considero os rankings um instrumento de trabalho com alguma utilidade, mesmo se comparam o incomparável. Mas o que os jornais poderiam fazer, com efectiva utilidade, era comparar, por exemplo, a evolução da lista das 50 ou 100 escolas com melhores resultados (e com um número significativo de provas), nos últimos 10 anos (haverá já rankings de tantos anos?). Poderiam mostrar como se comportam nessa lista as escolas públicas depois de tanta inovação da socióloga Rodrigues. Isso seria comparar o comparável. Seria também informativo e, porventura, edificante.

Adenda: ver no Profavaliação e no Aventar já algum tratamento nesse sentido.

08/10/09

Uma antevisão


As preocupações da FENPROF, com os professores ou técnicos das Actividades de Enriquecimento Curricular, são justíssimas. O que se está a passar ultrapassa muitas vezes os limites da decência. Mais, o que cabe perguntar é se isto não é, ou não pode vir a ser, um balão de ensaio para o futuro laboral dos professores, uma espécie de antevisão do enorme inferno que os espera. Estas coisas nunca se fazem todas de uma vez, vão-se fazendo de forma transversal, umas vezes pela direita outras pela esquerda moderna.