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04/10/08

A minha desrazão II

Num post anterior referi o sentimento desagradável que tinha perante a referência de Jean-Claude Trichet, a propósito da crise financeira, à II Guerra Mundial. O carácter desagradável do sentimento intensificou-se com as afirmações israelitas de que a Coreia do Norte teria fornecido meios a seis países do Médio Oriente para estes construírem armas de destruição em massa. Independentemente da parcialidade das afirmações dos israelitas, a verdade é que há vontade política no Médio Oriente para obtenção dessas armas e, por certo, também haverá vontade em fornecer-lhas, de forma mais ou menos discreta. Os sinais são preocupantes, muito preocupantes, desde há alguns anos. Mais, essa preocupação só pode aumentar quando esses sinais provêm de múltiplos lados e de diferentes patamares da realidade (economia, política, religião, cultura). Aquilo que pressinto mais do que vejo, na leitura dos acontecimentos mundiais, é uma erosão contínua do Ocidente, erosão essa que começou de forma muita lenta, mas que se tem vindo a tornar cada vez mais rápida. Não creio que o problema seja económico. A falta de vitalidade do Ocidente é a muitos níveis e aquilo que temos visto, ao nível dos desafios político-militares, até agora são apenas e só pequenos ensaios para testar a capacidade de resposta ocidental.

Houve um acontecimento decisivo que me levou, já há muitos anos, a dar atenção a alguns problemas inusitados e que pouco interessavam o comum dos mortais. Esse acontecimento foi a revolução iraniana de Khomeiny, nos anos 70, e a instauração de uma teocracia. Na altura, fiquei de boca aberta. E tentei perceber algum do pensamento que estava por trás do episódio. Aquilo que fui descobrindo, ao longo destes anos, está longe de me tranquilizar. A intranquilidade cresce à medida que o poder militar e económico do Ocidente entra em declínio (no outro dia Pulido Valente pediu desculpa a Mário Soares por o não ter levado a sério quando este começou a falar no declínio dos EUA). A intranquilidade intensifica-se quando muitas das políticas ocidentais têm contribuído para erosão do seu poder e atinge o paroxismo perante a descrença da opinião pública sobre a possibilidade de agravamento drástico da situação. Há muitos anos que percebi que o estado de guerra é a natureza das relações internacionais (obrigado Zé pelo Levinas). A paz - e toda a paz é uma paz particular (a paz ocidental ou a paz oriental ou… ou…), isto é, a paz sob condição de uma potência dominante - só se assegura pelo medo. Essa foi uma das lições, embora sem novidade, da Guerra-Fria. Eu creio, talvez por ser ocidental, que a paz ocidental é mais justa e mais pacífica e mais respeitadora das liberdades do que qualquer outra. Não faltará quem discorde de mim.

03/10/08

Jornal Torrejano, 3 de Outubro de 2002


Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, Carlos Henriques escreve Sporting em perda, Carlos Nuno, Viva a escola, Inês Vidal, Meias tintas, este blogger, Pós-modernidades, José Ricardo Costa, Casa de chá, Miguel Sentieiro, O Pombo.

Para a semana há mais, se os deuses estiverem para aí voltados. Bom fim-de-semana.

Vasco Pulido Valente - O começo do fim

Dizem que ganhou Obama. Por mim, achei McCain mais seguro. De qualquer maneira, para lá da polémica e da propaganda, o que emergiu pouco a pouco do debate foi o fim da América como a potência dominante do mundo - a "hiperpotência", para usar o calão dos peritos. Que me lembre, em Portugal, só Mário Soares falou sobre o assunto e ninguém o levou muito a sério (aproveito agora para lhe pedir desculpa). Mas para continuar: Obama e McCain definiram com toda a clareza os compromissos globais da América (embora com uma significativa discordância) e, como os definiram, esses compromissos, não são cumpríveis. Nem militar, nem económica, nem politicamente.

Obama, que durante a campanha "moderou" as suas posições, quer "sair" do Iraque daqui a um ano e meio. Tirando o erro inconcebível de marcar uma data, se no futuro previsível a América sair do Iraque, deixa atrás de si - no Iraque e no Médio Oriente - uma desordem perigosíssima e sem conserto. McCain julga que o surge do general Petraeus está a ganhar a guerra. Não está; e entretanto a guerra custa 10 biliões de dólares por semana e já custou até hoje perto de um trilião de dólares. Pior ainda: o fracasso da intervenção usou e desgastou o exército americano muito para além do tolerável e o recrutamento começa a ser difícil. Para recuperar, a América precisa de anos de paz (como precisou depois do Vietname). Infelizmente, não haverá paz tão cedo.

Mesmo que Obama acabe com a aventura do Iraque (uma pura fantasia eleitoral), é para transferir o grosso das tropas para o Afeganistão, que ele considera o objectivo principal. McCain também vê a maior necessidade de "reforçar" o Afeganistão. Nem um, nem outro devem perceber o esforço económico e humano que o exercício implica ou a irracionalidade de transformar, a tiro, um país tribal num Estado moderno. Nada lhes parece insensato ou extremo: impor à Rússia uma fronteira da NATO do Báltico ao mar Negro; "defender" a Geórgia; impedir (por que meios?) que o Irão venha a ter qualquer espécie de armas nucleares; fazer com que a Coreia do Norte inutilize as que tem; e, evidentemente, "reorganizar" a Venezuela e a Bolívia. A América pensa (e continua a agir) como uma "hiperpotência". É uma ilusão. A tecnologia militar não chega. Sem peso político, sem uma clara hegemonia económica e sem um exército praticamente inesgotável (e dinheiro para o pagar) existem limites que é mortal passar. E a América "sobreestendida" e dependente de 2008 passa, dia a dia, esses limites. [Público, 3 de Outubro de 2008]

26/09/08

Jornal Torrejano, 26 de Setembro de 2002

Ufff, que dia de calor. Não há cérebro que funcione. Mas, com calor ou sem ele, hoje é dia de nova edição do Jornal Torrejano e ainda por cima a edição que assinala o fim de 14 anos de existência, e o começo do décimo quinto, desta nova série. Parabéns, para aqueles que o fazem. Destaque de primeira página para a visita da eurodeputada Ilda Figueiredo à Fiação e Tecidos de Torres Novas. Os motivos, ordenados em atraso, não são os melhores. Referência também para a passagem da chama da solidariedade pelo concelho.

Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, passe-se para a muita escrita desta semana. Carlos Henriques escreve Liga volta depois da UEFA, Francisco Almeida, Terceira Jornada, Inês Vidal, Sem medo, João Carlos Lopes, Um desastre fatal chamado terceira divisão, o dono deste blogue, Dos benefícios da História, José Ricardo Costa, Oxford, Miguel Sentieiro, O Estreito de Magalhães, Santana-Maia Leonardo, As reprovações e a Educação Física.

Já está, para a semana inaugurar-se-á o 15.º ano de edição. Então, bom fim-de-semana.

25/09/08

Pedro Picoito - Só uma escola exigente é democrática

Por estes dias, milhão e meio de alunos portugueses voltam às aulas. Vão encontrar um sistema de ensino burocratizado, centralista e ineficiente. Irão para a escola que o Estado impõe aos seus pais, de acordo com a área de residência ou de trabalho. Talvez não tenham ainda todos os professores nos primeiros dias, porque a colocação de contratados é um processo nacional de tentativa e erro. Alguns acabarão o ano sem dar todo o programa de Português ou de Matemática por causa da indisciplina dos colegas ou da desmotivação dos professores. Vão encontrar, sobretudo, um sistema que, ao fim de um século de ensino obrigatório, ainda não ultrapassou o maior desafio da escola pública: conciliar a igualdade de oportunidades e a procura da excelência. É o mesmo dilema entre a paixão da igualdade e a paixão da liberdade que Tocqueville via no coração da democracia moderna. Na França jacobina, a igualdade do Terror venceu a liberdade da Revolução. Com as devidas distâncias de uma analogia histórica, algo de semelhante se passa hoje no ensino português.Vejamos um exemplo: os exames nacionais. O Governo socialista anunciou há dias, com retumbante publicidade, que a taxa de retenções (ou "chumbos") no ensino básico e secundário do ano passado foi a mais baixa da década. No entanto, segundo a Sociedade Portuguesa de Matemática e a Associação de Professores de Português, isso aconteceu porque os exames foram deliberadamente facilitados. Nivelaram-se as notas para embelezar as estatísticas. O Ministério da Educação esquece que este admirável mundo novo da igualdade acaba também com o incentivo à excelência. Para quê estudar, se Maria de Lurdes Rodrigues dará a todos os alunos, no fim do ano, outro milagre das rosas?

Mas será isso verdadeiramente democrático? Condenar todos os alunos à mediocridade, mesmo aqueles que pelo seu esforço chegariam mais longe, é o melhor que a democracia portuguesa tem para lhes oferecer?

Acredito que não. Só uma escola exigente é democrática. O ensino formal que os mais pobres não receberem na escola dificilmente virão a receber em contextos informais como a família ou a comunidade local. E, sem um ensino de qualidade, entrarão na vida activa em desvantagem - se conseguirem entrar na vida activa.

Só um sistema que permite a real liberdade de escolha dos pais é socialmente justo. Se as famílias estão descontentes com uma escola, devem ter o direito de optar por outra dentro do sistema público. Não há real liberdade de escolha, se o Estado limita a opção à ditadura do número da porta. Ou à largueza da bolsa doméstica.

Essa exigência e essa liberdade só serão possíveis com a avaliação das escolas. Não basta avaliar os professores para melhorar o ensino. Um professor não trabalha isolado - e, se o faz, algo vai mal. Há que avaliar os resultados de cada escola, responsabilizando as direcções e dando-lhes a maior autonomia pedagógica e administrativa para criar um projecto educativo próprio.


É urgente reforçar o peso científico dos programas. Os alunos não têm que passar mais tempo nas aulas: basta diminuir a carga, de resto muito ideológica, das áreas curriculares não-disciplinares. A disciplina de Português não tem que ensinar tolerância e multiculturalismo, mas gramática e ortografia. A disciplina de Matemática não tem que ensinar a respeitar a opinião dos outros, mas que 1+1=2 (independentemente das opiniões). Só uma escola onde se ensina que 1+1=2 pode ensinar o respeito pelos outros. Porque respeita o conhecimento, respeita os alunos, respeita as famílias e respeita os contribuintes que a pagam.O país pode fazer mais e melhor para vencer o desafio da educação. [Público de 25 de Setembro]

23/09/08

American Dream na Finlândia

Um novo incidente com armas, numa escola finlandesa, fez mais de dez mortes. Este é, em pouco tempo, o segundo massacre escolar na Finlândia. O conteúdo semântico da expressão «american dream» é mais amplo do que a possibilidade de ascensão social para além dos determinismos de classe, raça ou outros. Faz parte dele a possibilidade de escolhas individuais e uma cultura de revolta contra o dado e o estabelecido. Os massacres nas escolas americanas são, de certa forma o negativo, desse sonho americano. A revolta contra o estabelecido, a liberdade e a iniciativa de quem se sente fechado num universo aparentemente aberto.

Não deixa de ser curioso que uma sociedade apontada como o contrário da americana esteja a produzir o mesmo tipo de fenómeno. O American Dream é, de alguma maneira, o resumo da evolução democrática da modernidade ocidental. Mas estes acontecimentos não serão sintomas de uma efectiva oclusão dentro dessas sociedades? Não serão elas muito menos abertas do que pretendem e não terão elas muitos pontos de contacto com as sociedades fechadas e totalitárias, que apenas entrevemos, por breves instantes, nestas ocasiões.

21/09/08

O delírio da senhora ministra

Vale a pena ler aqui as palavras de reacção de Maria de Lurdes Rodrigues sobre o crescimento do mercado das explicações. Estes dados doeram fundo na alma da senhora ministra, ao desmontarem as suas elucubrações sobre aprendizagens feitas na escola que inventou. Como a realidade não se adequa com as suas grandes e generosas ideias, trata de exorcizar essa mesma realidade classificando-a: a dependência de explicações seria uma situação de «Terceiro Mundo». Foi para fazer face ao recurso às explicações que ela se lembrou do conceito de escola a tempo inteiro, onde as crianças são massacradas com inutilidades. Mas a senhora nem sabe o que é uma escola, nem, apesar de socióloga ou por causa de o ser, faz a mínima ideia de como funciona a sociedade. Fico espantado – isto é retórica – que uma pessoa doutorada acredite que as classes médias achem que a «escola a tempo inteiro» prepare os filhos para as universidades. Como noutros países do primeiro mundo onde foram tomadas medidas idênticas àquelas que a senhora por cá tomou, as classes médias estão a tirar os filhos da escola pública e o mercado de explicações a crescer exponencialmente. Um conselho à senhora ministra da Educação: faça uma lei para proibir os estudos sobre educação que não sejam pensados no ISCTE, e faça outra para proibir a realidade.

19/09/08

Jornal Torrejano, 19 de Setembro de 2002

O mundo continua a caminhar com regularidade. Chegou sexta-feira e com ela a nova edição online do Jornal Torrejano. Na primeira página, a reportagem sobre a vinda do ministro Vieira da Silva para para participar, nas escolas locais, no dia do cheque, perdão, no dia do diploma, e distribuir cheques de 500 € aos melhores alunos. Destaque também para a entrevista com o velho "rocker" local, Xarepa, pelos 40 anos de carreira musical. Referência ainda para a decisão da Câmara Municipal baixar o IMI.

Na opinião, para não quebrar as rotinas, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Na opinião escrita comece-se com o desporto. Carlos Henriques escreve Selecções sem jeito. Passe-se a seguir para outras opiniões menos desportivas. Carlos Nuno escreve A idade média, Francisco Almeida, Tu é que sabias, Galileu Galilei, João Carlos Lopes, Quinhentinhos, este blogger, Reinvente-se o paraíso, José Ricardo Costa, Are you lost?, Santa-Maia Leonardo, Não fujas ao fisco, não!

Assim termina a notícia das notícias. Para semana, se os deuses para aí estiverem voltados, haverá mais Jornal Torrejano e notícia dele neste blogue. Bom fim-de-semana.

18/09/08

O que todos sabemos sobre o enigma Jerónimo de Sousa

Constança Cunha e Sá, no Público de hoje, medita sobre o fenómeno da popularidade de Jerónimo de Sousa (ver aqui). Fala das reformas, do esvaziamento dos direitos adquiridos e, fundamentalmente, da hipocrisia do sistema para com os desfavorecidos, escorada no autismo dos governantes e nos êxtases dos sectores liberais. Tudo isto é verdade, mas a popularidade da chamada afectividade de Jerónimo de Sousa deve-se, também, a uma outra coisa que não se diz: ninguém leva a sério o dirigente comunista. Se se olhar para os partidos portugueses podemos conceber que todos os seus chefes poderiam ser primeiros-ministros. Sócrates porque o é, faz jogging pelas capitais do mundo inteiro e veste-se bastante bem. Ferreira Leite porque é economista, uma avó dedicada, uma pessoa séria e pouco palavrosa. Paulo Portas porque leu algumas biografias do Churchill, veste fatos às riscas e parece gostar de Jaguares. Até Francisco Louçã é um primeiro-ministro credível, pois é professor de Economia e, apesar da traquinice de não usar gravata, todos descortinamos ali a seriedade de um domicano medieval. Mas alguém vê em Jerónimo de Sousa um futuro primeiro-ministro? Claro que não, nem mesmo os seus camaradas que o elegeram para secretário-geral. Nele apenas se vê aquilo que ele é, um operário metalúrgico que gosta de dançar e do Benfica, segundo parece. Nas actuais circunstâncias, as suas ideias – para além do círculo dos fiéis – não fazem estremecer ninguém, nem de amor nem de ódio. É este facto que permite a popularidade de Jerónimo de Sousa. Já ouvi gente de direita dizer que vai votar nele. A ideia é assustar um bocadinho o sistema e a maltosa que tomou conta dos grandes partidos governamentais. Fosse Jerónimo de Sousa uma personagem idêntica a Álvaro Cunhal, com a solidez teórica e a cosmovisão deste, e a simpatia por ele seria bastante menor e ninguém se lembraria de assustar quem quer que fosse com votos vermelhos. É que, nesse caso, ele poderia mesmo ser primeiro-ministro.

12/09/08

Jornal Torrejano, 12 de Setembro de 2002

Cá está ela, a nova edição on-line do Jornal Torrejano. Para primeira página temos o magno problema da transferência de competências das escolas: câmaras querem salvaguardar orçamento e uma entrevista com o Presidente do Atlético Alcanenense.

Na opinião, como sempre, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, Carlos Henriques escreve Voltaram as selecções, Francisco Almeida, Corações escondidos, este blogger, Meditações reaccionárias, José Ricardo Costa, O pequeno-almoço, Miguel Sentieiro, Noves fora e Santana-Maia Leonardo, A minha proposta para o 2.º e 3.º ciclo do ensino básico.

E assim ficou, por aqui, a notícia das notícias. Bom fim-de-semana.

07/09/08

Aquele país não é para aristocratas


Sempre me pareceu precipitado o pré-anúncio, por essa Europa fora, da futura vitória de Obama nas presidencias americanas, bem como a denominada obamania. As sondagens parecem inverter-se e começam a sorrir a McCain. As razões disso são muito menos a cor da pele ou a putativa pouca preparação do Obama para a política externa, como pretendem os republicanos. A razão é aquela que Vasco Pulido Valente assinalou ontem no Público: Obama é um aristocrata, um espírito superior que frequentou as melhors universidades do país. Isso, na política americana, está longe de ser sempre uma virtude. As pessoas esquecem a realidade americana.

A América, aquela que a esquerda europeia abomina, foi feita pelos proletários e candidatos a proletários que, não tendo o que comer na velha Europa, para lá emigraram e realizaram o seu sonho (o sonho do proletário é enriquecer) ou ficaram esmagados pela transformação do sonho em pesadelo (veja-se toda a mitologia em torno dos loosers). A América é a vitória cabal do quarto estado e o American Dream e a democracia americana são a realização pura e dura da ditadura do proletariado. O gosto americano, que para nós é símbolo de pirosice, é a expressão cultural do quarto estado. Faz parte também dessa cultura o fundamentalismo evangélico ou o gosto pela violência. O quarto estado é composto por gente dura, para quem, mesmo se ricos há duas ou três gerações, a vida dos seus tetra-avós não foi um passeio na Terra.

Não há nada que o espírito do quarto estado, quando ascende à condição burguesa, mais abomine do que um espírito aristocrático. Obama pode perder e pode perder pelas piores razões: por ser demasiado educado e possuir uma preparação superior. Aquele país não é para aristocratas.

06/09/08

Vasco Pulido Valente - Democracia e mediocridade

No ataque a Obama, a Convenção do Partido Republicano, que não podia recorrer ao racismo puro e duro (embora indirectamente o fizesse), preferiu concentrar o seu ódio ao homem no que nele, a seguir à cor, acha mais detestável: a educação. Isto pode parecer estranho num partido dedicado à independência, liberdade e criatividade do indivíduo de que falou sempre com grande entusiasmo. Mas não é. O que os republicanos detestam em Obama é uma educação aristocrática e privilegiada (Direito Constitucional em Harvard e, a seguir, em Nova Iorque, na Universidade de Columbia) e o respeito que ela ainda inspira. Em compensação, a candidata à vice--presidência, Sarah Palin, é muito estimada por ter tirado um vago curso de Jornalismo e um mestrado sem valor numa universidade desconhecida.


Como diria Luís Filipe Menezes, se por lá andasse, Obama é um "elitista" do Leste; Sarah uma perfeita representante das "bases". Obama não merece confiança, porque pensa bem e fala bem, e porque, percebendo a complexidade do mundo, não o vê com a intolerância e o primitivismo do americano "normal". A uma pessoa assim, quase um "europeu", com certeza que falta a convicção e a coragem para impor a supremacia da América e para "sentir" a difícil vida dos "pequenos". Sarah Palin, com duas noções desconexas na cabeça e a brutalidade dos simples, pertence, real e simbolicamente, à mítica "pequena cidade" do interior que o cinismo urbano não conseguiu contaminar; à "pequena cidade" ordeira e beata, em que vizinhos se ajudam e o "espírito comunitário" não enfraqueceu.

Os comentadores de serviço explicam que o voto depende de uma identificação entre o candidato e o eleitor. O candidato precisa por isso de um "tecido conjuntivo", que o ligue ao eleitor. Infelizmente, o "tecido conjuntivo" é, por um lado, um tecido de ignorância e de incultura, e, por outro, de "verdades bíblicas", de nacionalismo acrítico e de ressentimento por uma pobreza inescapável. Quando foi eleita governadora, Palin vendeu o avião do estado do Alasca, despediu o cozinheiro da residência oficial e despediu também o motorista, para guiar ela, humildemente no seu carro, para o trabalho. A essa não falta o "tecido conjuntivo" que falta a Obama. Só que o populismo, com democracia ou sem ela, e na América como em Portugal, acaba inevitavelmente por desprezar a inteligência e por exaltar e preferir a mediocridade. O que talvez promova a igualdade, mas não promete nada de bom. [Público, 6 de Setembro de 2008]

05/09/08

Jornal Torrejano, 5 de Setembro de 2002

Como é hábito, já está on-line a edição semanal do Jornal Torrejano, isto apesar do mau tempo que se faz sentir por estas paragens. O tema de abertura, talvez para sossegar os furores da 5 de Outubro, diz-nos que as escolas do concelho estão prontas para mais um ano. A primeira página ainda nos informa, embora o pessoal o dispensasse, que o Desportivo foi eliminado da Taça de Portugal pelo Lousada. Saliência também, e merecida, para uma local sobre a minha terra: o alcatrão está a voltar às ruas de Meia Via. Espero apenas que o meu primo, o Presidente de Junta, ande mais tranquilo, que a idade e a herança genética não dão para irritações.
Na opinião e como é hábito, comece-se pelo cartoon de Hélder Dias, siga-se, alfabeticamente, os textos de Carlos Henriques, Clássico: Porto perdeu dois pontos (ainda bem, digo eu), este humilde blogger, O som do silêncio, José Ricardo Costa, O Countryside e Miguel Sentieiro, Campismo em quadrupedia.
Dito isto, encerramos por aqui o post, desejando um bom fim-de-semana, mesmo com aguaceiros e vento forte.

03/09/08

Como morre um Estado?

Serão os Estados como as estrelas ou os seres vivos? Terão eles uma vida orgânica marcada pelo nascimento, maturação e morte? Por norma, assinalamos o nascimento dos estados, mas referimos pouco a sua morte, a não ser que ela seja espectacular, como aconteceu com alguns estados do antigo bloco socialista. Mais raro ainda é dar atenção aos sintomas que prenunciam uma agonia, ainda que prolongada, de um estado. Por exemplo, esta notícia do Público: “Mais mil gasolineiras aderem a programa do Governo que recruta empresas privadas de segurança”.

Haverá gente que não dará pelo problema, haverá quem se regozije com mais uma conquista da iniciativa privada, mas esta notícia mostra um novo sintoma de um Estado em agonia, talvez uma agonia doce e prazenteira, mas uma agonia efectiva. O que define um Estado enquanto Estado é o monopólio da violência legítima, inclusive, ou fundamentalmente, o seu uso na garantia da segurança dos cidadãos e dos seus bens. Quando um Estado entrega uma parte da segurança aos privados está a alienar uma parte daquilo que faz a sua essência. Por muito que agrade às gasolineiras e a quem nelas trabalhe ou abasteça o carro, a verdade é que estamos perante uma confissão terrível do poder político: somos incapazes de cumprir aquilo para que deveríamos estar destinados. Que outro nome, a não ser morte, se poderá dar ao acto de uma instituição que desiste das funções que lhe cabem por natureza? Os estados ocidentais, nomeadamente o português, encontram-se em processo de suicídio.

Santana Castilho - Conhece Andreas Schleicher?

Admito que boa parte dos leitores responda negativamente à pergunta em epígrafe. É alemão, físico de formação com estudos complementares em Matemática e Estatística e responsável pelo PISA (programa bem conhecido entre nós, onde a OCDE compara, periodicamente, a proficiência dos sistemas de ensino de mais de meia centena de países). A revista Veja, de 6 de Agosto, na sua habitual entrevista de fundo (três páginas), ouviu Schleicher sobre as fragilidades da Educação no Brasil. Algumas das suas afirmações são importantes para reflectirmos sobre o que por cá se passa.

1. A jornalista Mónica Weinberg perguntou: "Porque é que a China e outros países em desenvolvimento estão à frente do Brasil?" Schleicher respondeu: "Antes de tudo... são países que decidiram colocar a educação em primeiro lugar. Isso se traduz em medidas... Uma das mais eficazes diz respeito à criação de incentivos para tornar a carreira de professor atraente..."

É! As paixões e as prioridades não se afirmam com discursos e propaganda, mas com medidas. Este Governo passará à posteridade por ter sido o que mais diminuiu os professores e mais desvalorizou a seu estatuto profissional e social. A carreira docente é hoje um coio de burocracia. Os melhores debandam. O contingente no desemprego representa, em número, quase um terço dos activos. Os salários e a autonomia intelectual e profissional dos professores está congelada há anos, à ordem dos anões que mandam. Atraente esta profissão?

2. Pergunta: "A Coreia do Sul investe sete por cento do PIB na educação e o Brasil cinco por cento. É preciso aumentar o orçamento brasileiro?" Resposta: "Não necessariamente... As pesquisas chamam a atenção... para um aspecto menos visível e mais relevante do problema. As verbas disponíveis são muito mal gastas..."Vem a propósito esta referência. Aí temos o Governo, ainda o orçamento para 2009 não é publicamente conhecido, a gerir criteriosamente as fugas de informação e a propalar que vai aumentar as dotações da educação. Esperemos, para ver o que repõe do que cortou. Facto até agora é que, em 2008, nos ficámos por 3,5 por cento do PIB, um belo retrocesso jogado em cima de opções políticas desastrosas e produtivas de enganos (farsa das novas oportunidades, muito ensino profissional de papel e lápis, formação de professores para o desemprego, promoção escandalosa de resultados administrativos, etc., etc.).

3. A dado passo da entrevista, Schleicher fala da "obsessão" em proporcionar os melhores ambientes possíveis à aprendizagem, por parte dos países com melhores resultados. E ilustrou: "Durante uma viagem à Coreia do Sul, presenciei uma cena emblemática da preocupação das pessoas com o que se passa na sala de aula. Enquanto os estudantes faziam a prova para o ingresso na universidade, as principais avenidas de Seul ficaram fechadas para o tráfego. Quando perguntei ao funcionário do Ministério da Educação a razão daquilo, ele respondeu com naturalidade: estudo exige silêncio. Os motoristas que esperem."

Tal como cá! Caixotes de lixo enfiados na cabeça de professores, agressões continuadas e balbúrdia generalizada, que um ridículo estatuto disciplinar permite, em nome dos doces afectos da esquerda moderna e das garantias que as criancinhas malcriadas e os pais desinteressados lhe merecem.

4. De entre outras que o espaço não pode contemplar, deixo uma última citação à reflexão dos patriarcas do "eduquês": "Os professores ainda conduzem as suas aulas guiados muito mais pelas próprias ideologias do que por conhecimento científico. Na prática, eles escolhem seguir linhas pedagógicas motivados por nada além de crenças pessoais e deixam de enxergar aquilo que as pesquisas apontam como verdadeiramente eficaz. Fico perplexo com o facto de a neurociência, área que já permite observar o cérebro diante de diferentes desafios intelectuais, ser tão ignorada pelos educadores".
[Público, 3 de Setembro de 2008]

02/09/08

Uma questão de carácter

Há quase sempre, por parte de José Sócrates e perante pessoas em situação difícil, uma palavra ríspida, como se sentisse necessidade de humilhar ainda mais a quem já a vida humilha suficientemente. Perante as dezenas de milhares de professores que não obtiveram colocação, Sócrates não se eximiu a dizer: "Muitos gostariam que o Estado contratasse mesmo que não precisasse deles, mas não é essa a nossa visão. O tempo da facilidade acabou. (Público)"

Talvez aquelas pessoas não procurem facilidades e um lugar para não fazer nada. Se o fizessem, talvez fosse melhor inscreverem-se num dos grandes partidos em vez de pensar em dar aulas. Mas por muita razão que possa ter, e aqui tem alguma, um primeiro-ministro tem o dever de abordar a situação de outra forma e com outras palavras. Muitos dos não colocados foram vítimas da ilusão que políticos e universitários semearam país fora, uns para garantir votos, outros para assegurar o lugar na Universidade. Agora, quando já é tarde para evitar as ilusões, é de mau tom atiçar os cães do populismo a gente já fragilizada pela vida. Mas Sócrates não muda.

31/08/08

Vasco Pulido Valente - Só nos resta esperar...

O Presidente da República promulgou a Lei de Segurança Interna, que, como já se sabe, cria um "secretário--geral de segurança", nomeado pelo primeiro-ministro e perante ele directamente responsável. Em princípio, o secretário-geral de segurança, com a categoria de secretário de Estado, tem uma autoridade eminente sobre a PJ, a GNR e a PSP e acesso à informação que, por acaso ou desígnio, elas recolherem. Este sistema, em si próprio confuso e manifestamente perigoso, põe o primeiro-ministro na posição ambígua de um superpolícia, que ninguém vigia e a que ninguém pede contas. Mesmo assim, o prof. Cavaco não viu nisto qualquer perigo para a liberdade dos portugueses. Nem - é bom dizer - o dr. Mário Soares, para quem, hoje em dia, Sócrates nunca erra.Pior do que isso: depois do cartão "1 em 4" (ou "1 em 5", não sei ao certo), uma ingerência inadmissível na privacidade do cidadão, que foi um fiasco prático, mas não deixa de ser um abuso político, o Governo resolveu agora introduzir, obrigatoriamente, um chip em cada automóvel. Não se conhece ainda em pormenor a capacidade do chip e o que se pretende dele. O chip tanto pode servir para um fim inócuo, identificar um carro in situ, por exemplo, como para seguir esse carro por Portugal inteiro, coisa que permitiria ao secretário-geral da segurança e, por consequência, ao primeiro-ministro, averiguar em profundidade e pormenor a nossa suspeitíssima vida. Cavaco acha o assunto "melindroso". E a Comissão Nacional de Protecção de Dados, num gesto de uma futilidade, pede que o "alcance" do chip não passe de um "alcance local". Estará a pensar em Vizela ou na Grande Lisboa e no Grande Porto?

A vontade de controlar o cidadão não é original, nem uma invenção autoritária do Governo Sócrates. A Inglaterra é o país do mundo com mais câmaras de vigilância por habitante. E é público o assalto aos direitos do indivíduo na América (e também em Inglaterra) depois do 11 de Setembro. A existência de meios leva inevitavelmente o Estado (esteja nas mãos de quem estiver) a pretender regular e dirigir a sociedade. A "pessoa humana", de que a ortodoxia ocidental não pára de falar, é crescentemente definida, limitada e fiscalizada em nome de benefícios a que não aspira e de valores que não subscreveu. Só nos resta esperar que o desleixo indígena atenue, ou demore, o inferno que se prepara.

29/08/08

Jornal Torrejano, 29 de Agosto de 2008

On-line já está a nova edição do Jornal Torrejano. Destaque para o festival Bons Sons em Cem Soldos. Também relevante é a entrevista a Vítor Ferreira, Presidente do “Ferroviários” do Entroncamento. Considere-se ainda a confirmação de que Torres Novas deixará de ser comarca judicial.

Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, leia-se de Carlos Henriques, 1.ª jornada sem surpresas. Francisco Almeida bisa com Hérnan Flores e Naufrágios, Miguel Sentieiro escreve Torcer o nariz e Santana-Maia Leonardo, Direita e esquerda.

Enquanto não vem a nova edição, vá vendo as últimas da região actualizadas no site do Jornal Torrejano. Bom fim-de-semana.

24/08/08

O triunfo de uma nação

Os Jogos Olímpicos de Pequim, terminados hoje, são uma espécie de retorno a uma época que parecia terminada com o fim da Guerra Fria. Se durante décadas a Europa de Leste e o Ocidente se defrontaram politicamente através dos resultados dos seus atletas, esse espírito parecia ter acabado. Mas Pequim foi o momento do seu retorno. A China fez dos Jogos uma exibição marcadamente ideológica da sua presença no mundo. Por ideologia não se deve entender, porém, o comunismo, mas o nacionalismo chinês. O comunismo, entendido como ideologia proveniente do marxismo, parece não ter qualquer influência por aqueles lados e o Partido Comunista representa apenas uma forma de congregação de uma elite política que segura ferreamente um poder autocrático.

Assim, o que esteve em causa não foi a disputa sobre a superioridade de um regime político-económico (socialismo versus capitalismo), mas a afirmação de uma potência ascendente na cena internacional. Desde a organização até à competição propriamente dita, a China nada descurou e obteve um triunfo em toda a linha. Mas que mensagens deixou a China ao mundo? Por entre a racionalidade que caracteriza os dirigentes chineses, ficou claro que a China quer ser mais do que uma potência de segunda ordem. Ela aspira ao papel de hiperpotência e mesmo ao de potência hegemónica. Em segundo lugar, tornou-se evidente que o horizonte para onde a China pretende caminhar não é o de continuar a ser eternamente o lugar da mão-de-obra barata. Quem aspira a hegemonia política mundial só o pode fazer se aspirar a ser também uma hiperpotência científico-tecnológica. Os jogos serviram para sublinhar este aspecto.

O mais curioso, todavia, é que o caminho que está a ser seguido não é, como aconteceu no Ocidente, o corte radical com a tradição. Pelo contrário, o que assistimos foi a uma subtil montagem onde tradição e modernidade se fundiram escoradas na afirmação do poder do Estado-Nação. Os Jogos Olímpicos foram o triunfo de uma nação, num tempo em que os políticos europeus não sabem que fazer com os seus próprios estados-nação.

22/08/08

Jornal Torrejano, 22 de Agosto de 2008

Já on-line está a 633.ª edição do Jornal Torrejano. Destaque para uma entrevista telefónica com o nadador torrejano, Nuno Vicente, que no passado dia 15 atravessou o Canal da Mancha a nado. Destaque ainda para o trabalho com o arqueólogo João Zilhão sobre a Gruta do Almonda e a sua importância para o conhecimento pré-histórico.

Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, Carlos Henriques escreve Porto, defesa de papel!, Carlos Nuno, A menina que se segue, Francisco Almeida, Pegar no bisturi, Marco Liberato, Sobre o Leste, nada de novo e Santana-Maia Leonardo, O assalto ao BES e aos reformados.

Para a semana haverá mais Jornal Torrejano. Um bom fim-de-semana e umas boas férias para quem de férias estiver.