
No outro dia acabei por fazer 53 anos. Em dias como esses, sempre surge, insidiosa, a pergunta sobre o que é envelhecer. Envelhecemos quando o nosso discurso se torna completamente metonímico.
Indisciplinada, a mente pensa por contiguidade, a essência da metonímia, associa os assuntos, as ideias, os conceitos uns com os outros por essa relação de lateralidade. Mas um exercício de censura, socialmente exigido, leva-nos a que o discurso se foque num objecto e siga nessa focalização. Envelhecer mata a censura e liberta a manifestação metonímica do discurso.
Sub-
repticiamente começa-se a falar com os outros, deixando o discurso deslizar de assunto para assunto, num encadeamento que ameaça ser infinito. Eis os primeiros sinais, o triunfo da contiguidade metonímica da fala sobre o encadeamento lógico da comunicação. Envelhecer é o triunfo da contiguidade sobre a fixidez de uma posição, a transição do discurso do elemento sólido para o elemento líquido. Liquefeita a fala,
encerramo-nos nela. Envelhecer é ficar cerrado na liquidez interminável da fala. É assim que me vejo já. [12 de Setembro de 2009]