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14/09/09

A regência da amargura

Estamos em maré eleitoral. A política concerne ao nosso ser mais profundo ou é apenas uma governação de máscaras? Ela diz respeito ao homem expulso do paraíso. Mas aqui surgem todos os perigos. Uns, perante a posição extra-paradisíaca do homem, fazem da governação uma gestão do inferno. Outros fazem da política uma viagem de retorno ao paraíso, de onde Deus nos expulsou. Não são diferentes dos primeiros. Estar fora do paraíso não é necessariamente habitar no inferno. Pode ser amarga a vida quando se descobre o despejo divino e a imutabilidade desse decreto, mas nem a felicidade nem a infelicidade são os objectivos da política. Sensato será fazer da governação a mera regência da amargura. [14 de Setembro de 2009]

13/09/09

O meu lugar

Nunca soube lá muito bem qual o meu lugar no mundo. A evidência da posição foi sempre para mim um mistério. Não é que não tenha feito tentativas, múltiplas, para me posicionar. Mas o estar em posição sempre me cansou. Talvez a fadiga resida numa debilidade física e tudo se circunscreva à falta de ginásio. Ter um lugar no mundo implica ter uma posição e ser incansável na manutenção do posto. A minha fadiga, mesmo se física, sempre foi acompanhada, porém, por um des-crédito. Quanto mais quis acreditar mais desacreditei. No cerne de tudo, fundamentalmente daquilo que defendi ou defendo, sempre descobri o irrisório. O irrisório nasce da tensão entre não ter lugar e o querer ter uma posição. Desde que fui expulso do paraíso, não eu mas Adão e Eva por mim, que vivo no não-lugar do irrisório. O irrisório cresceu quando os homens, expulsos do paraíso, pensaram que tinham uma posição na Terra e essa posição era o seu lugar. [13 de Setembro de 2009]

12/09/09

Envelhecer

No outro dia acabei por fazer 53 anos. Em dias como esses, sempre surge, insidiosa, a pergunta sobre o que é envelhecer. Envelhecemos quando o nosso discurso se torna completamente metonímico. Indisciplinada, a mente pensa por contiguidade, a essência da metonímia, associa os assuntos, as ideias, os conceitos uns com os outros por essa relação de lateralidade. Mas um exercício de censura, socialmente exigido, leva-nos a que o discurso se foque num objecto e siga nessa focalização. Envelhecer mata a censura e liberta a manifestação metonímica do discurso. Sub-repticiamente começa-se a falar com os outros, deixando o discurso deslizar de assunto para assunto, num encadeamento que ameaça ser infinito. Eis os primeiros sinais, o triunfo da contiguidade metonímica da fala sobre o encadeamento lógico da comunicação. Envelhecer é o triunfo da contiguidade sobre a fixidez de uma posição, a transição do discurso do elemento sólido para o elemento líquido. Liquefeita a fala, encerramo-nos nela. Envelhecer é ficar cerrado na liquidez interminável da fala. É assim que me vejo já. [12 de Setembro de 2009]