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10/08/09

Alma Pátria - 22: Os Conchas - Acredita e Be Bop A Lula


Os Conchas - Acredita e Be Bop A Lula

Este vídeo pertence a uma apresentação de Os Conchas (José Manuel Aguiar de Concha e Fernando Gaspar) na RTP, em 1960. O Rock'n' Roll estava no auge da sua popularidade nos EUA e as novas gerações europeias ansiavam pela americanização, vista talvez como uma certa libertação dos constrangimentos que a velha Europa impunha. Portugal, apesar da ditadura do Prof. Salazar, não ficou imune. Os Conchas são uma prova disso. A capa apresentada não corresponde às canções do vídeo. Pertence ao primeiro EP gravado pelo duo, mas um EP partilhado com Daniel Bacelar. Duas canções para Os Conchas, duas para Daniel Bacelar. Era equitativo e o vinil estava caro.

09/08/09

Alma Pátria - 21: Luís Cília - Canto do Desertor


Luís Cília - Canto do desertor

A pátria, in illo tempore, tinha uma alma oculta, uma alma que não podia manifestar-se na Rádio e na Televisão portuguesas, mas manifestava-se, por exemplo, na televisão francesa. Era uma alma recalcada. A voz de Luís Cília - não é uma grande voz, mas é uma voz de que gosto bastante pelo seu timbre nostálgico - era uma das vozes dessa alma abscôndita, que atravessava o país pelo silêncio da noite. Aqui canta uma canção contra a guerra colonial. O original em disco é de 1964 e a gravação que se apresenta, em condições não muito boas, é de 1966. Pelo que se percebe da imagem da capa, no canto superior direito, o disco foi editado pela célebre editora discográfica de gauche Le Chant du Monde.

08/08/09

Alma Pátria - 20: Raul Solnado - A Guerra de 1908


Raul Solnado - A Guerra de 1908

Palavra de honra que tinha programado, lá mais para a frente, este post sobre o Raul Solnado. Mas tendo ele morrido hoje, antecipei-o. Quantas vezes terá passado esta historieta humorística na rádio portuguesa de illo tempore? Bem, não é música, mas é como se fosse. É o humor que era permitido. Raul Solnado, porém, não é um homem do antigo regime, aliás como muitos outras figuras que passam pelo Alma Pátria. Pelo contrário, ele é uma das faces da democracia portuguesa. E acima de tudo, Raul Solnado era uma pessoa de bem. Isso é o mais importante.

07/08/09

Alma Pátria - 19: Conjunto António Mafra - Sete e pico

Conjunto António Mafra - Sete e Pico

Não consegui determinar a data da primeira edição desta cantiga do Conjunto António Mafra. Um tom brejeiro e uma certa crítica dos costumes não afastaram este grupo das emissões da Rádio portuguesa. Este é um outro lado da Alma Pátria, o qual vai ganhar desenvolvimento em canções de teor brejeiro, ainda mais ao gosto popular, depois do 25 de Abril de 1974. Para dizer a verdade, não faço a mínima ideia do que hei-de dizer sobre este símbolo vindo do nosso passado.

06/08/09

Alma Pátria - 18: Paulo de Carvalho - Corre Nina

Paulo de Carvalho - Corre Nina

Retornamos ao Festival RTP da canção, agora à edição de 1970. Paulo de Carvalho interpreta Corre Nina. Já não estamos perante o tipo de canção que marcou o país na década anterior. Parece aberto o caminho para uma nova geração já não de cançonetistas mas de cantores. A canção em causa, apesar disso, é francamente desinteressante e pouco adequada à voz do intérprete. Aliás, Paulo de Carvalho é para mim um mistério. Uma das vozes mais interessantes da música portuguesa, mas que falhou uma grande carreira. Não é que não tenha tido êxitos, mas nunca teve uma continuidade no tipo de música que fez.

05/08/09

Alma Pátria - 17: João Maria Tudella - Kanimambo


João Maria Tudella - Kanimambo

Um novo retrato de Portugal do anos cinquenta e sessenta. João Maria Tudella nasce em Moçambique e é um cantor de síntese entre a cultura social vigente no Portugal metropolitano e a cultura dos portugueses presentes na então colónia portuguesa. Muitas das suas canções têm por tema Moçambique, as suas cidades e regiões. Kanimambo é o primeiro grande êxito do cantor, um êxito de 1959, mas que passou assiduamente na rádio durante muitos e muitos anos. Apresenta-se a capa do EP (45 rpm) com a montagem de uma foto posterior, do tempo dos festivais RTP da canção. Não faço ideia se a edição do disco tinha uma capa rígida de cartão e aquilo que vemos é apenas uma espécie de subcapa que quase todos os discos tinham.

04/08/09

Alma Pátria - 16: José Viana - Fado do Cacilheiro


José Viana - Fado do Cacilheiro

José Viana não era propriamente falando um fadista. Fundamentalmente, foi um homem de teatro, de um teatro que terminou quando o regime salazarista se finou, o teatro de Revista. Este fado é uma das imagens de marca desse teatro e o principal título de glória do artista. O teatro de revista, uma manifestação eminentemente lisboeta, era uma espécie de oposição tolerada ao regime, apesar da censura feroz que se abatia sobre os gracejos mais ou menos brejeiros que os números de revista tinham. As piadas políticas, não passavam disso, eram indirectas, leves alusões que o público compreendia e das quais ria. Mas só rimos daquilo que toleramos e o regime sabia disso. Se permitia algumas gargalhadas sobre a sua idiossincrasia, era porque isso não o punha em causa, pelo contrário, servia como escape das tensões ocultas que atravessavam a sociedade. Por muito que isto possa chocar as leituras do teatro de revista como forma de oposição ao salazarismo, a verdade é que ele se inseria no Zeitgeist e o reforçava. Não resistiu à democracia.

03/08/09

Alma Pátria - 15: Hermínia Silva - Fado da Sina

Hermínia Silva - Fado da Sina

Este Fado da sina pertence, segundo julgo, à banda sonora do filme Um Homem do Ribatejo, de Henrique Campos (1946). Interpretado por um dos nomes grandes do fado e da rádio portuguesa, Hermínia Silva, é também ele um repositório do topos ideológico que percorria Portugal nos anos quarenta. É evidente que esse topos não tem a sua origem nessa época. É provável que possa ter origem nas correntes políticas e sociais derrotadas pelo liberalismo e que tiveram em D. Miguel o seu representante. A sua permanência num Portugal rural só desapareceu com o fim desse mundo, nos anos noventa do século passado e a europeização da vida social portuguesa.

02/08/09

Alma Pátria - 14: António Calvário - Oração

António Calvário - Oração

Música: João Nobre. Letra: Francisco Nicholson e Rogério Bracinha. Intérprete: António Calvário. Decididamente, o Alma Pátria teria de entrar alguma vez no Festival TV da Canção, o grande momento anual da música ligeira portuguesa, nos anos sessenta e princípio de setenta. As famílias juntavam-se para ver o Festival e, com as grelhas fornecidas pelos diários, seguiam o escrutínio até se apurar o vencedor. Oração é a primeira canção vencedora de um Festival, em 1964. António Calvário representou Portugal no Festival da Eurovisão e recebeu a excepcional pontuação de zero pontos. Enfim, um conspiração do cosmopolitismo europeu contra o nacional-cançonetismo. Seja como for, peço o favor de escutarem bem a canção. A atenção não deve ser apenas focada na música. A letra é mais uma lição de sociologia pátria. Aliás, o Festival TV da canção até ao 25 de Abril de 1974, bem como a sua relação com o público, seria matéria relevante para interessantes análises da nossa portugalidade.

01/08/09

Alma Pátria - 13: Carlos Ramos - Não Venhas Tarde

Carlos Ramos - Não Venhas Tarde

Não consegui encontrar a data de criação deste fado cantado por Carlos Ramos. Também não encontrei, na Internet, a capa da gravação original. Carlos Ramos faz parte de um trio de vozes masculinas muito interessantes, que deviam estar no auge na altura em que nasci, em meados dos anos cinquenta. Para além de Ramos, refiro-me a Max e a Alfredo Marceneiro. Este Não Venhas Tarde é um retrato social do país que então éramos. Não me refiro à infidelidade, pois essa é, como o amor, eterna. Refiro-me ao tipo de relação homem mulher subjacente ao texto. O homem cindido entre o puro amor e o desejo erótico, cada um deles representado por um tipo de mulher, como se a sua coincidência numa única fosse impossível. Esta ideologia era também subjacente ao regime político que se vivia na altura. Não estou a dizer que foi o regime que a produziu. Diria até o contrário: é este tipo de ideologia social que acaba por permitir e mesmo requerer o tipo de regime que se vivia. Dito isto, repito: Carlos Ramos tinha uma voz assinalável

31/07/09

Alma Pátria - 12: The Sheiks - Missing You

The Sheiks - Missing You

Para não se pensar que a Alma Pátria é apenas um repositório de canções românticas, nacional-conçonetismo e faduncho, aqui fica uma das primeiras bandas rock portuguesas que atingiu um reconhecimento nacional assinalável. The Sheiks, assim mesmo como The Beatles ou The Rolling Stones, foram formados em 1963. Em 1964 a banda estabiliza com a sua formação mais conhecida: Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Fernando Chaby e Edmundo Silva. Cantavam essencialmente em inglês e tentavam integrar o movimento de música pop-rock que emergira em Inglaterra. A canção Missing You é um êxito da banda datado de 1965, tem 44 anos. O tempo passa.

30/07/09

Alma Pátria - 11: Max - A Rosinha dos Limões


Max - A Rosinha dos Limões

Estas músicas que vêm construindo Alma Pátria relacionam-se comigo de maneiras diferentes. Algumas acho-as absolutamente detestáveis, outras têm, a meus olhos, uma certa graça, outras ainda são por mim reconhecidas como muito boas, mesmo que não sejam nem nunca tenham sido a "minha" música. É o caso desta A Rosinha dos Limões, de Artur Ribeiro (não encontrei vídeo disponível), na voz de Max (Maximiano Sousa), um grande artista madeirense. Não consegui encontrar a capa da gravação original da canção por Max, nem tive tempo para procurar datas e outras informações. Mas a canção e a voz de Max valem por si.

29/07/09

Alma Pátria - 10: Trio Odemira - Cartas de Amor

Trio Odemira - Cartas de Amor

O Trio Odemira é um pilar essencial do imaginário musical do nosso país. Está em actividade desde os anos cinquenta e teve nas décadas de cinquenta e de sessenta o seu apogeu. Era presença assídua na rádio e os seus êxitos musicais foram muitos. Não consegui determinar o ano da edição do EP Trovas Populares, onde está Cartas de Amor, mas, segundo a Wikipedia, a gravação foi feita entre 1955 e 1967. Refira-se que este universo musical não existia apenas em Portugal. A América Latina, incluindo aí o Brasil, a Europa e os EUA tinham muita música desta, uma música bem feita, uma música dirigida, através da Rádio, às classes populares. Também tinham outras coisas. Era isso que nos faltava.

28/07/09

Alma Pátria - 9: Artur Garcia - Sombra de Ninguém

Artur Garcia - Sombra de Ninguém

Voltou a Alma Pátria, depois de uns dias de interregno. Voltou com um dos símbolos daquilo que se chamou nacional-cançonetismo. Esta é uma expressão equívoca. Por um lado, há uma clara alusão a uma certa colagem ao regime do dr. Salazar. Por outro, a expressão é irónica na conexão entre o nacionalismo e o cançonetismo. Os cantores, ou os cançonetistas, assim apelidados nunca se reconheceram enquanto tal. Artur Garcia é um dos que frequenta o Centro de Preparação de Artistas da Emissora Nacional e, na década de 60 é um dos grandes animadores de Festivas TV da canção. Tinha um enorme público tanto na canção romântica como no teatro de revista. Sombra de Ninguém é uma canção apresentada ao Festival TV da Canção, de 1969. Um exemplo entre muitos. Embora ache insuportável este tipo de música, reconheça-se a enorme distância que vai o chamado nacionl-cançonetismo para a música pimba que a democracia tornou dominante na cultura popular portuguesa.

24/07/09

Alma Pátria - 8: Maria de Lurdes Resende - Alcobaça

Maria de Lourdes Resende - Alcobaça

Se há cantoras da rádio em Portugal, Maria de Lourdes Resende é uma delas. Começou a cantar no final dos anos 40 e em 1955 venceu, em Génova, um concurso com a canção Alcobaça, autoria do maestro Belo Marques e de Silva Tavares. O interessante desta história é a lentidão do tempo. Nasci em 1956 e tenho a memória clara, portanto uma memória já dos anos 60 e..., de ouvir passar com insistência, na rádio e na TV, esta canção. A mim parecia-me eterna, como tudo em Portugal da altura, ou talvez isso fosse apenas a percepção infantil do tempo, que o confunde com a eternidade. Não menos curioso é esta canção fazer parte de um enorme grupo de canções toponímicas. Os artistas nacionais, como se diria na altura, cantavam tudo o que fosse cidade de província. Desde a Figueira da Foz até Viana do Castelo, não faltavam letristas para cantar a glória provincina. E Portugal, onde só há província, parecia encantado. Fiquemos, hoje, por Alcobaça.

23/07/09

Alma Pátria - 7: Dr. José Afonso - Amor de Estudante


Dr. José Afonso - Amor de Estudante

Balada do Outono, tanto quanto julgo saber, é o primeiro disco gravado por José Afonso. Um EP de 1960. Neste momento inaugural, José Afonso ainda não representa qualquer corte com o meio musical português. O Fado de Coimbra era um dos esteios culturais de um certo nacionalismo que suportava a ditadura do professor Salazar, também ele um estudante e um lente de Coimbra. Existiam vários programas radiofónicos dedicados ao Fado e às guitarradas de Coimbra. Um desses programas era à hora de almoço. Lembro-me muito bem de vir na circulação (assim se chamava o autocarro, ou a carreira, que fazia, em Torres Novas, a ligação entre o Colégio Andrade Corvo e a garagem dos Claras ou o Grémio da Lavoura) e escutar no rádio o programa dedicado aos fados de Coimbra. Aqui fica um José Afonso ainda dr. e não revolucionário.

22/07/09

Alma Pátria - 6: João Ferreira-Rosa - Fado dos Saltimbancos


João Ferreira-Rosa - Fado dos Saltimbancos

Este é um post quase falhado. Não sei qual a data do Fado dos Saltimbancos, nem encontrei a capa do disco onde originalmente ele é publicado. Fica, porém, uma imagem de um Portugal praticamente morto. Um Portugal monárquico, tradicionalista e amante de toiros. A Revolução do 25 de Abril e a entrada para a CEE liquidaram-no, mas as pessoas da minha geração ainda o conheceram. Ah, não se pense que eu não gosto de touradas. Gosto mesmo, embora não seja um aficionado. Não é impunemente que se nasce no Ribatejo, perto da Golegã e da Chamusca, de toda a linha do Tejo onde a tradição taurina era bem forte. Seja como for, esta é uma parte da alma pátria em transformação acelerada. Continua, porém, a haver saltimbancos, aqueles rapazes, moços forcados, que, gratuitamente, teimam em pegar um touro de caras.

21/07/09

Alma Pátria - 5: Rui de Mascarenhas - Encontro às dez


Rui de Mascarenhas - Encontro às dez

Este artista está ligado à minha existência, e de uma forma traumática, diga-se. Lá para o início dos anos 60, lembro-me de ter um período em que não era capaz de ficar sozinho no quarto. Qualquer coisa me assustava e requeria a presença de um adulto perto de mim. A minha tese, desde essa altura, era a seguinte: o nome Rui de Mascarenhas, ouvido na rádio, sempre ligada lá por casa, fazia-me medo. Não me lembro como a crise passou. Mais tarde, descobri que esse período crítico foi contemporâneo da gravidez de minha mãe, que assim me iria fazer compartilhar o mundo, que durante quatro anos girara à minha volta, com um irmão. As leituras psicanalíticas esclareceram o assunto. Aqui fica uma notável cantigueta de 1961, Encontro às dez, da imbatível dupla Jerónimo Bragança e Nóbrega e Sousa. Note-se, na letra da canção, a utilização do você e do si. Notável. Nota final: o cantor nem sequer se chamava Rui de Mascarenhas, mas Rui Pinho Ferreira. Mascarenhas era apenas nome artístico

20/07/09

Alma Pátria - 4: Quarteto 1111 - A Lenda d'El Rei D. Sebastião


Quarteto 1111 - A Lenda d'El Rei D. Sebastião

Segundo informações encontradas na Wikipedia, o EP A Lenda d'El Rei D. Sebastião, do Quarteto 1111, foi o primeiro disco português a ser tocado no célebre programa Em Órbita, do Rádio Clube Português. Era o nosso rock progressivo mesclado de música tradicional, para combinar com o sebastianismo do tema e a filosofia da saudade. Estávamos em 1967 e o fechamento do país ao mundo também passava por aqui. Mas não há ninguém, da minha geração e das que a bordejam, a jusante e a montante, que não tenha ouvido muitas e muitas vezes a canção do grupo de José Cid.

19/07/09

Alma Pátria - 3: Maria de Fátima Bravo - Vocês Sabem Lá

Maria de Fátima Bravo - Vocês Sabem Lá

Em 1958, o existencialismo penetrava no espírito da pátria. Não, não foi numa faculdade de filosofia, mas na canção popular. Jerónimo Bragança e Nóbrega e Sousa compõem, Maria de Fátima Bravo canta Vocês Sabem Lá. Claro que é um existencialismo fundado na saudade, mas esse é o toque nacional, um existencialismo mais bucólico. De resto, está lá tudo. Desde o Dasein heideggariano e o seu ser-para-a-morte, até ao absurdo de Camus, passando pela náusea de Sartre. Se Maria de Fátima Bravo fosse francesa talvez rivalizasse com a Juliette Greco na rive gauche... Aqui deve ter andado pelos festivais da canção.