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29/10/07

A paranóia do inquérito

Ao fazer o post anterior, lembrei-me de uma das maiores pragas que atinge instituições públicas e privadas: a paranóia do inquérito. Por tudo e por nada faz-se um inquérito. Esta doença, um caso claro do foro psiquiátrico, está muito disseminada nas escolas, mas é vulgar também noutros locais, hospitais, centros de saúde, empresas, etc. Genericamente esses inquéritos, para além de aborrecerem quem é obrigado a responder-lhes, sofrem sistematicamente dos seguintes defeitos: 1. não assentam na definição clara do objecto que querem conhecer; 2. não seleccionam indicadores relevantes para o que se quer investigar; 3. a maior parte das vezes, o objecto que se quer conhecer não é “conhecível” através de um inquérito; 4. quem constrói os inquéritos raramente sabe lê-los; 5. depois de se obterem os resultados (a grande maioria das vezes completamente irrelevantes ou distorcidos), ninguém sabe o que há-de fazer com eles.

Eis como a ciência se torna inimiga das instituições. O inquérito tem um papel determinante nas ciências sociais, mas fora delas pode ser um perigo autêntico. Um inquérito é um instrumento de observação trabalhoso, que implica um domínio teórico e prático das técnicas de construção e um domínio teórico do objecto a observar. Como não há nada disso, o inquérito é um instrumento de uma ideologia paranóica que atingiu o nosso país, um instrumento que não serve para nada a não ser para massacrar as pessoas e para, no melhor dos casos, arquivar. Se eu fosse Ministro da Educação (ah! ah! ah!), por exemplo, proibia as escolas de fazerem inquéritos. Na escola os únicos inquéritos permitidos seriam os testes e as chamadas orais aos alunos. Os professores que gostassem de brincar aos inquéritos deveriam pedir transferência para um sítio onde aprendessem a fazê-los, por exemplo, o Instituto Nacional de Estatística.

28/10/07

Um universo defeituoso

Estou preocupado. Uma equipa anglo-castelhana (Honni soit qui mal y pense) descobriu, informa o Sol, um ‘defeito de fabrico’ no Universo. Segundo Marcos Cruz, do Instituto de Física de Cantábria (como adoro esta palavra, experimente e diga Cantábria e cantábrico e veja se o mundo não lhe soa de outra maneira), a causa de uma ‘mancha fria’, um buraco com um bilião (aqui uma pessoa nunca sabe se estão a dizer um milhão de milhões ou, como os americanos e os brasileiros, esses exagerados, mil milhões, que é a isso a que eles chamam um bilião) de anos-luz onde parece não existir nada, é um defeito que remonta à origem do universo.

Um defeito e logo na origem do universo. A coisa começou mal e nunca mais há-de ter conserto. É o que faz mandar fazer tudo nas economias emergentes. Querem universos baratos? Então, toma, vêm com defeito. E um defeito daquele tamanho não há remendo que o tape. O que anda a fazer o pessoal do controlo de qualidade, são capazes de me explicar? E os gestores de topo e os médios e os de baixo servem para quê? Um defeito com aquele tamanho e o pessoal precisou deste tempo todo para o descobrir? Não me venham com histórias. Eu, se pudesse, despedia essa gente toda.

Mas a minha preocupação nasce de outra coisa. Que fazemos com este universo defeituoso? Devolvemos? Ainda está dentro da garantia ou os nossos homens da gestão deixaram-na caducar? Por causa dessa gente, sempre à procura de preços competitivos, sou obrigado a viver, desculpem a expressão, num universo de merda, com um buraco do caraças, ainda por cima frio, já viram, com o Inverno à porta e um buraco frio daquele tamanho no universo em que vivo. Imaginem as constipações e gripes que vou ter, eu e todos os outros. Ainda por cima este planeta nem uma porta traz.

Para acabar, gostava de protestar com o pessoal da ciência. Quando a coisa foi inventada prometeram-me, a mim e a todos os outros, que só servia para trazer felicidade ao homem e à mulher. Acham que uma notícia destas traz felicidade alguém? Um tipo, ainda por cima a viver numa zona sísmica, compra uma casa e descobre, passado anos, que aquilo tem um defeito de todo o tamanho nos alicerces… Felicidade? Não me lixem.

08/10/07

Esperança de vida?

A população mundial com mais de 75 aumentará 44% até 2030 (ver aqui). Eis uma boa notícia. No entanto, se olharmos para o caso português, a notícia boa passa a ser uma notícia toldada pelas possibilidades efectivas de sobrevivência. Em 2030, haverá 3,4 milhões de pensionistas, mais de 1/3 da população. Haverá também 4,8 milhões de pessoas activas, o que comparado com 1990 é muito pouco (4,1 milhões de pessoas activas para 2,2 milhões de pensionistas). Mas o mais preocupante é o escasso número de crianças e jovens que constituirão a nossa população. Se estimarmos, para essa altura, uma população de 10 milhões de habitantes (acredito que a estimativa peca por excesso), então resta apenas uma população «infanto-juvenil» de 1,8 milhões, pouco mais de metade da população «reformada». Admirável mundo novo em que a capacidade científica consegue, ao mesmo tempo, aumentar a esperança de vida e contribuir para que não haja nascimentos que sustentem essa esperança de vida.

24/09/07

Rititi e a lobotomização

Já falei aqui no blogue Rititi – o Blogue Rosa Cueca. É um sítio a que se deve voltar com frequência. Se quer uma análise lúcida da pouca lucidez que atingiu as instituições modernas – privadas ou públicas –, então leia o post com o título 24. Protesta a blogger com a lobotomização a que está sujeita e depois descreve todo o lixo lexical (eficiência, produção, maximização de recurso, eficácia) que é soprado por pulmões que pertencem a cabeças que tendem para o vazio absoluto, digo eu. A formação deixou de ser uma necessidade, para se tornar uma triste moda, um slogan, cuja finalidade é estoirar com a parca vidinha das pessoas. Não há Jack Bauer que valha.

09/09/07

A próstata delas

Mais um contributo preciosíssimo da ciência para a qualidade de vida da humanidade em geral e das mulheres em particular. Segundo um estudo de cientistas austríacos, as mulheres afinal não só ejaculam (coisa de que já havia suspeitas, agora cientificamente confirmadas) como também têm próstata. É assim que os dicionários ficam desactualizados. Mal vi a notícia no Sol on-line, fui a correr ao dicionário da Porto Editora. E que significação encontro aí para o vocábulo próstata? Encontro a seguinte: «órgão glandular situado em volta do início da uretra dos machos de quase todos os vertebrados». Agora parece que as mulheres possuem uma «estrutura contígua à parede anterior da vagina que rodeava em toda a longitude a uretra e que, segundo os autores, tinha aparência semelhante à da próstata masculina». Qualquer dia somos, refiro-me aos homens, completamente descartáveis. Elas não só hão-de copular – extraordinário vocábulo – consigo mesmas, como se hão-de auto-engravidar com o fruto da sua ejaculação – outro vocábulo extraordinário. Há que ter esperança… O macho da espécie, esse caminha não para a dispensa de serviço, mas para a extinção por inutilidade. Há coisas que uma pessoa dispensava saber...

06/09/07

No reino dos épsilons

Sempre por boas causas, a ciência não se cansa de nos aproximar do admirável mundo novo. Agora é para fazer frente às doenças neurovegetativas. O Reino Unido vai permitir a criação laboratorial de embriões híbridos de animais e seres humanos. Não foi Dostoievski que disse se Deus não existe, então tudo é possível? Mesmo que exista, nada parece impossível. Qual o problema de hibridar material genético humano e o duma galinha ou duma ratazana? Aliás o que não faltam entre os homens são galinhas e ratazanas. Hoje é para curar o Alzheimer, amanhã quem nos garante que não se experimenta a feitura de um híbrido tipo épsilon, como o ficcionou Aldous Huxley. Se for economicamente rentável, quem se importa?

05/09/07

O registo universal do ADN

Um juiz britânico quer uma base de dados universal do ADN dos residentes e visitantes da Grã-Bretanha. Evidentemente a causa é a melhor: acabar com a discriminação. Neste momento, 40% da população negra masculina está registada contra apenas 9% da branca, também masculina. É assim, com boas razões, que o mundo se tornará numa imensa colónia penal. Todos estarão registados, “fichados”, controlados. Por que razão as sociedades liberais se encaminham para um imenso cativeiro? Haverá sempre uns idiotas que dirão: quem não deve, não teme. Mas quem lhes disse qual a natureza da dívida?