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14/09/11

A bondade moral da mentira a si mesmo


Um estudo publicado na revista Nature chega a uma interessante conclusão. Possuir uma visão adequada da realidade é uma desvantagem competitiva. Os indivíduos que possuem excesso de confiança, quando em situações de competição por recursos cujos benefícios sejam suficientemente grandes em relação aos custos, têm vantagem competitiva sobre os que têm uma visão adequada da realidade. Por outro lado, quando se está perante conflitos com um custo elevado, a selecção favorece aqueles que têm uma visão subavaliada das suas capacidades. Em caso algum, aqueles que possuem uma auto-avaliação realista e adequada são seleccionados.

Deste ponto de vista e contrariamente à moral tradicional, a auto-ilusão e a mentira sobre si mesmo são um bem, enquanto a perspectiva moral que ordena o auto-conhecimento induz uma desvantagem. O célebre oráculo de Delfos, que ordenou a Sócrates conhece-te a ti mesmo!, nada sabia dos processos de selecção. Não bastava a já velha diatribe de Nietzsche contra a verdade. Agora ficamos a saber que é melhor possuir uma imagem ficcional e desadequada da realidade para podermos sobreviver. Assim sendo, o Nietzsche de a Origem da Tragédia tem completa razão. A preocupação do homem teórico, a preocupação com a verdade enquanto adequação do conhecimento à realidade, é uma patologia.

15/01/10

As coisas técnicas



Esta belíssima imagem de propaganda a um transístor portátil da Grundig (1958) foi vampirizada de o Dias Que Voam, um blogue que merece bem estas vampirizações, para além de inúmeras visitas e leituras. Aliás, há lá outro anúncio notável da Grundig (1957), uma verdadeira lição de sociologia da época. Este transístor seria então, segundo a publicidade, uma jóia. Pequena, mas autêntica. Se pela autenticidade a Grundig nos assevera o seu carácter verdadeiro, oposto a uma falsificação, pela associação com uma jóia faz evocar em nós o que é belo e aquilo que resiste ao tempo, aquilo que é eterno.

Eis aqui, porém, a mentira da técnica. As coisas técnicas, na sua verdade, podem ser belas, e num momento apenas, mas não eternas. A beleza delas decairá rapidamente, para não falar no facto de serem produzidas para se tornarem obsoletas. Por exemplo, eu olho quase como a rapariga do anúncio para o meu e-book Kindle, mas sei já que ele representa o passado. A beleza que ainda entrevejo nele e o prazer que me dá na suavidade da leitura que me proporciona serão em breve ultrapassados por um novo objecto que se oferecerá imperativo, pelo saber da técnica e do design, à minha voluptosa faculdade de desejar.

04/01/10

Ponto G, afinal não há, ou haverá?


A ciência continua a iluminar a minha existência, palavra de honra. Agora, porém, investigadores do King's College, e logo do King's College, asseveram, segurem-se bem, que o ponto G não existe. Reproduzo: «O estudo, publicado no The Journal of Sexual Medicine envolveu 1800 mulheres, com idades entre os 23 e os 83 anos, todas gémeas. Os investigadores preferiam analisar gémeas, pensando que a resposta seria parecida. No entanto, as respostas eram diferentes: enquanto algumas mulheres afirmam ter ponto G, as suas irmãs garantem que não têm. Para os cientistas, isto sugere que o ponto G é apenas um mito.» Um mito, afinal o ponto G era um mito, um objecto digno de fé, mas tão imaterial como a nossa alma. Quem sabe se o ponto G não será a alma ou parte da alma.

Para as pessoas não ficarem espiritualmente desanimadas e continuarem e empreender a busca do ponto G, eu deixo uma pista. O estudo só pode provar uma coisa. As gémeas - monozigóticas, depreende-se - não possuem ponto G. Mas as outras, as falsas gémeas e as mulheres não gémeas? Se o meu argumento não for suficiente, então recomendo a leitura, para consolo espiritual, sublinho, deste post, de Março de 2008, de Os Marlenes, um blogue brasileiro. Anuncia a descoberta científica do ponto G.

Se este tipo de investigação é muito inconclusivo sobre o objecto de estudo, digamos assim, é iluminador do nosso tipo de existência e das finalidades que orientam a nossa vidinha.

01/01/10

O alelo 334


Como estive fora, só hoje dei por esta agradável notícia. Ficamos assim a saber que, segundo a psicóloga francesa Maryse Vaillant, a infidelidade masculina pode ajudar a salvar o casamento. Mas as coisas não ficam por aqui. Nós, os que pertencemos ao sexo masculino, não só podemos ser infiéis - para salvar o casamento, entenda-se -, como se o não formos é caso para desconfiar: «os homens que não têm casos extraconjugais podem ter “uma fraqueza de carácter”.» E qual é o homem que quer ter uma fraqueza de carácter? A sábia psicóloga esclarece: «Por norma, estes homens tiveram "um pai que era fisicamente ou moralmente ausente", e desta forma, "têm uma visão completamente idealizada da figura do pai e da função paternal. Eles não têm flexibilidade e são prisioneiros de uma imagem idealizada das funções do homem”. »

Dirá o leitor, ou a leitora, que tudo isso são especulações de uma ciência espúria, a Psicologia. São preconceitos actuais contra preconceitos antigos. Eu concordo, mas o problema é outro. Estava eu à procura de uma imagem para ilustrar este post e descubro isto: «A culpa da infidelidade masculina pode ser… dos genes. À primeira vista parece uma desculpa de um marido adúltero, mas cientistas suecos confirmam esta teoria. Segundo os investigadores do Instituto Karolinska de Estocolmo os homens que possuem um determinado gene, o alelo 334, têm mais tendência a cometer a fatídica “facada” no matrimónio. Um dos cientistas responsáveis pelo estudo afirma que “os homens que possuem uma ou duas cópias desta variação especifica no gene, têm o dobro das hipóteses de experimentar problemas com relações monogâmicas”.»

As especulações psicológicas parecem então fundar-se na pesquisa genética. O que me aborrece no meio disto tudo, porém, é que as minhas hipotéticas infidelidade ou fidelidade, mais ou menos canina, não se deverão nem a um estado passional nem ao meu livre-arbítrio, mas ao facto de possuir ou não uma ou várias cópias do alelo 334. Que depressão! Um infiel que se preze até perde a vontade de o ser ao pensar que aquilo não é ele, mas o alelo 334 em acção. Com tudo isto é a liberdade que se vai. Como compensação, naqueles países onde existe a civilizada prática de lapidação de adúlteros, passam apenas a apedrejar as mulheres (que definitivamente não têm alelo 334 e logo nada justifica a infidelidade) e os alelos 334.

31/12/09

Do saudável e do patológico



Não é a questão de saber se a homossexualidade é uma doença que me interessa (ver aqui e aqui). O que é interessante neste tipo de debate público é o papel da saúde e da doença, esses obscuros conceitos que atormentam os nossos sonhos mais agradáveis. Há, certamente, definições técnicas para o que é um estado patológico. A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem uma classifcação internacional de doenças, que definirá a doença segundos critérios técnico-científicos. A questão, porém, é outra. Do ponto de vista da natureza em geral, não existem estados patológicos. Os processos naturais sucedem-se uns aos outros e, de um ponto de vista global, é indiferente que eu vença um determinado vírus ou que esse vírus me mate.

A doença, ou os estados patológicos, é assim uma questão antropológica, um problema do homem. Por isso, a doença e a saúde são sobre-investidos com os nossos preconceitos e aspirações sociais e definidos segundo critérios políticos (os critérios técnicos da OMS são claramente critérios políticos, se consideraramos que, hoje em dia nas sociedades modernas, só são politicamente aceitáveis os critérios definidos de forma técnico-científica), os quais representam esses mesmos preconceitos e aspirações. Se o critério do saudável e do patológico teve um papel fundamental na instituição dos asilos psiquiátricos, por exemplo, ele não desapareceu de então para cá. Continuamos a assistir a uma intensificação da intervenção social fundada nessa separação. Num tempo em que a dominação técnica sobre a natureza humana, nomeadamente através da descodificação do ADN, se tornou avassaladora, a definição do saudável e do patológico vai ser um dos campo essenciais da nossa vida em comunidade, isto é, da nossa vida política.

Retomando a questão do início, a definição da homossexualidade como uma não patologia é tão política como a definição contrária, aquela que a propunha como uma doença, apenas os preconceitos que estribam uma ou outra decisão são diferentes. É evidente que os médicos psiquiatras referidos nos links mais acima jamais reconhecerão que a sua posição é fruto de um preconceito. Jamais um preconceito se reconhece enquanto tal, é esta uma das suas facetas. O que a humildade nos aconselharia seria então reconhecer que há diferentes tipos de preconceitos, e uns são mais úteis em determinado momento social, ou que estão mais de acordo com o espírito da época, do que outros. Contrariamente ao que se possa pensar, este tipo de pronunciamento técnico-científico não é apenas uma forma de luta contra um preconceito em desacordo com o Zeitgeist, é também uma manifestação, de natrueza não consciente, de um sintoma de mal-estar com o novo preconceito. Onde se encontra esse sintoma? Na necessidade de lhe dar, ao novo preconceito, uma fundamentação técnico-científica, tornando-o aos olhos da opinião pública, pouco versada na revisibilidade da ciência, uma aura de verdade definitiva e absoluta.

22/12/09

A catolicidade de Shakespeare



Um dia William Shakespeare, talvez farto da sua Stratford natal, decidiu ir dar uma curva. Estávamos no ano de 1585. Só apareceu, em Londres, em 1592. Um mistério de sete anos na vida do bom William. Aventa-se, agora, a hipótese de se ter dirigido a Roma como cripto-católico, num tempo em que os ares não estavam lá muito respiráveis, em Inglaterra, para os papistas. Seja como for, aquilo que fez depois, no âmbito literário, bem pode ser considerado um verdadeiro milagre. Mistérios destes só podem ser resolvidos, porém, por métodos drásticos. Perguntem ao Shakespeare, talvez ele responda. Pelo twitter, claro. Com ida ou não a Roma, ele tornou-se mesmo católico, isto é, verdadeiramente universal.

20/12/09

O problema das compras



Não fora o facto de na pré-história as mulheres passarem o dia a recolher comida de qualidade para alimentar a família e os homens a planear e a matar as suas presas, hoje homens e mulheres fariam compras de formas diferentes do que fazem, com os conflitos conhecidos. Informa-nos o i online, ao dar conta de um estudo da Universidade de Michigan. Veja-se a informação que os prestimosos cientistas decidiram partilhar connosco, a qual enlevados agradecemos: «as mulheres podem passar horas e horas dentro das lojas à procura do vestido perfeito porque a sua preocupação pré-histórica sempre foi com a qualidade da comida, enquanto os homens decidem avançar sobre o que querem comprar, tal como avançavam sobre o animal que queriam matar e, depois de cumprida a tarefa, regressavam a casa.» Vale a pena comentar?

19/12/09

Um mastro de cem metros



De uma coisa podemos estar certos, a criatividade dos presidentes de câmara é um bem inesgotável. No A Origem das Espécies descubro a história, aliás de contornos absolutamente psicanalíticos, do presidente da câmara de Paredes. Anda desejoso de construir um mastro para hastear a bandeira da pátria, presume-se. Até aqui a narrativa é compreensível. Onde não se consegue acompanhar o raciocínio do genial pastor do povo de Paredes (não se pense que esta referência é brejeira e ao gosto popular. Deriva, pelo contrário, da mais clássica das literaturas, da Ilíada de Homero, onde os reis helenos, e acima de todos eles o poderoso Agamémnon, são apodados, a cada momento, de pastores de povos) é na altura e preço da coisa. Cem metros e um milhão de euros. Que sonhos, para além da entrada garantida no Guiness, ou pesadelos atormentarão este nosso eleito autárquico? Talvez não falte por aí gente que gostasse de ter um mastro de cem metros.

14/12/09

Banha da cobra


Sócrates

Há notícias que me deixam siderado. O i online, a propósito de um best-seller sobre um miúdo autista, noticia que Einstein, Mozart, Sócrates, Stanley Kubrik e Andy Warhol, além de geniais, tinham outra coisa em comum: todos sofriam da síndrome de Asperger, uma forma de autismo que afecta a interacção social. Diga-se de passagem que é relativamente modesto. Há outras listagens que incluem Newton, Wittgenstein e Darwin. Admito que se possa especular sobre Einstein ou Wittgenstein, gente bem conhecida e pública no século XX, para não falar de Kubrik ou de Warhol. Admito mesmo que há suficientes indícios sobre Darwin e Newton, indícios que permitiriam um diagnóstico, o qual, felizmente, nunca foi feito. Mas sobre Sócrates, de quem praticamente nada se sabe, que sentido faz este tipo de inclusão numa lista de nobres deficientes? Não seria antes Platão que sofreria de síndrome de asperger? Ou não teria Platão, genial proto-romancista, desenhado uma figura do mestre que permitisse à posteridade este tipo de exercícios? O que há de interessante nisto é a transformação, no caso de Sócrates, de uma atitude deliberada numa patologia. Ele não agiu como agiu, ele não enfrentou a hipocrisia pública como o fez, não aceitou o julgamento público e a morte, por convicção. O coitado sofria de síndrome de asperger e como não sabia, preferiu morrer por respeito à lei da cidade, em vez de aceitar a ajuda dos amigos e pôr-se a milhas, até que os ânimos se acalmassem. Isto é o que se chama transformar a ciência em banha da cobra.

13/11/09

Icebergs à deriva



Há uma corrente que insiste em negar a causalidade humana nos fenómenos relacionados com as alterações climáticas. Um dos argumentos é curioso. Funda-se num apelo à humildade. Seria uma arrogância humana desmedida, pretender que as alterações que estão a ocorrer no clima do planeta se devem à acção de uma das espécies que o habita. Mas dois séculos e meio de Revolução Industrial, uma revolução cada vez mais acelarada e disseminada por todos os cantos do planeta, alguma coisa devem ter contribuído para o actual estado de coisas. Por exmplo, para o fenómeno dos icebergs que se estão a deslocar para a Novaz Zelândia ou para a acelarção da perda de massa na Gronelândia. Mas subjacente a este tipo de posições está uma não pequena arrogância, uma hubris prometaica que presume que tudo é permitido ao homem. Que o fogo tenha sido roubado aos deuses e dado aos homens é um crime que, apesar da condenação de Prometeu, pode ser perdoado à espécie humana. É duvidoso, porém, que os deuses permitam impunemente que o homem utilize esse mesmo fogo para reduzir a casa onde habitam a cinzas.

07/10/09

Um país de vigilantes



A cibervigilância feita pelos próprios cidadãos está a ganhar terreno no Reino Unido. Todos aqueles que queiram, a partir de casa, vigiar determinado local público (a partir das imagens recolhidas em directo por câmaras de segurança instaladas in loco) poderão ganhar cerca de mil euros por mês com esta actividade, que funciona através de um sistema de pontos. Acho sempre salutar estas notícias vindas velha Albion. A ideia da mais velha democracia, do profundo respeito pelas liberdades individuais, da crítica sobranceira aos outros países, nunca verdadeiramente cultores da democracia à inglesa, e acima de tudo a anglofilia parola que, a coberto do nosso singular liberalismo estatal, grassa por cá fazem-me sempre sorrir perante notícias como estas. É um facto que a segurança é um problema em muitos países ocidentais, mas transformar a Internet num mundo de vídeovigilância e todos os cidadãos em candidatos a polícias talvez nos  obrigue a repensar qual o verdadeiro referente para a alegoria de Orwell. A mais velha democracia está a transformar-se de civilização de comerciantes  em país de vigilantes. Não sei se isto tem a ver alguma coisa com a leitura de Sir Karl Popper.

02/10/09

Estou deprimido

Estou deprimido! Por causa desta notícia do Público sobre a nossa tetravó Ardi. A depressão não é por ter enriquecido o álbum de família, nem por esta nossa antepassada ser peluda, todos sabemos que naqueles tempos não havia tempo para ir a depiladora. Mais macaca peluda menos macaco, a família já não pode ficar mais descomposta do que está. O que me deprime é isto: Pensava-se, por exemplo, que o antepassado comum aos homens e aos chimpanzés teria sido um ágil trepador, conseguindo pendurar-se nos ramos das árvores, baloiçar-se e saltar de árvore em árvore tal como os chimpanzés de hoje. E também que, tal como eles, caminhava apoiado nos nós dos dedos das mãos. Mas não foi nada disso que os investigadores descobriram ao examinarem Ardi. Como explica ainda o comunicado acima referido, quando se encontravam no chão, os hominídeos de Ardipithecus caminhavam erguidos, apoiados nas suas duas pernas (isto é sugerido pela anatomia dos pés). Uma outra ideia estabelecida pode, aliás, estar em causa aqui: a que supõe que o bipedismo dos hominídeos nasceu quando eles se lançaram para espaços mais abertos, para a savana e não quando ainda viviam na floresta. Os Ardipithecus eram “bípedes facultativos”, dizem os investigadores. Quer dizer que os antepassados comuns a nós e aos grandes primatas eram mais parecidos connosco do que com eles? Quer dizer que eles mudaram mais do que nós? Quer dizer que nada garante que, num futuro mais ou menos longínquo, os nossos netos não sejam uma espécie de grandes orangotangos? Uma pessoa deprime-se, não é?

13/05/09

As teorias conspiratórias da gripe suína



O mundo sempre foi propício a teorias da conspiração. Estas são o sal da história. Sem uma conspiração por detrás dos acontecimentos, a história dos homens não passaria de uma narrativa insossa. Nisto revela-se a propensão metafísica da humanidade. Os factos históricos são puros acidentes, os quais têm a sua origem na essência verdadeira, a conspiração. Com a epidemia da gripe suína veio para a esfera pública a discussão de uma nova conspiração. Segundo os adeptos da teoria, o vírus teria sido fabricado em laboratório. Dividem-se, porém, os teorizadores em dois grupos. Num dos lados, estão os adeptos do acidente; no outro, encontram-se aqueles que defendem o fabrico propositado do vírus para infectar intencionalmente as populações e assim se venderem vacinas.

A pregnância destas teorias reside na verosimilhança dos seus supostos. Em primeiro lugar, é verosímil que pessoas ajam maldosamente com vista ao lucro. Faz parte da natureza humana. Em segundo lugar, o conhecimento científico e técnico está suficientemente desenvolvido para produzir este tipo de vírus. Em terceiro lugar, está instalada uma forte desconfiança entre as populações e os vários tipos de elites. Nestas incluem-se as elites económicas e científicas. Este terreno é fértil para todo o tipo de delírios da razão. Mas o problema central é este: e se o delírio não é delírio? Do ponto de vista jurídico, cabe aos teóricos da conspiração provar que ela existe ou existiu. Mas do ponto de vista da percepção social o problema é diferente: cabe àqueles que não conspiraram provar que de facto não o fizeram. Esta contradição parece insanável.

Se de facto a epidemia alastrar com com elevado número de mortes, a teoria da conspiração ganhará terreno e poderá mesmo ser alavanca de grande agitação social. Por isso, há, do ponto de vista político, todo o interesse em mostrar que o vírus que atormenta a humanidade apareceu naturalmente e sem intervenção demiúrgica humana. Com a intervenção da OMS, o problema deixou de ser apenas científico e tornou-se eminentemente político. Era bom que não se esquecesse isso.

13/03/09

Leituras


Todos sabemos que apenas se visa ajudar a melhorar a vida das pessoas, a curar doenças graves, etc, etc. Cientistas britânicos "mostraram pela primeira vez que talvez seja possível "ler" a mente de uma pessoa, observando apenas a sua actividade cerebral." Não era aí, na mente com a sua actividade cerebral, que residia a última reserva de intimidade? Não se pensou sempre que a liberdade de pensar, enquanto puro acto de pensar, era inexpugnável? Claro, os cientistas falam de tratamento da doença de Alzheimer, o que nos comove a todos, mas estes projectos, pois eles são vários, queiram ou não, estão a abrir as portas para a transferência do Big Brother de fora para dentro seres humanos. Existindo a técnica, não faltarão os "bons" motivos para a usar. Uma técnica que começa por ser qualquer coisa laboratorial, em breve se tornará de uso comum. As aplicações políticas serão as mais interessantes. Admirável mundo novo.

07/10/08

Rédea curta no mulherio

Admirável mundo novo! Mas o mundo de que quero falar não parece novo, mas saído há instantes da Idade Média. Na Arábia Saudita uma fatwa (édito religioso) proferido pelo xeque Muhammad al-Habadan determina que as mulheres quando saírem à rua, e não tenham a cara completamente coberta com um lenço, só poderão mostrar um olho, e não dois como tão desavergonhadamente faziam até aqui. Parece que é um reforço das regras de modéstia. No Irão, para não se ficar atrás no zelo com a modéstia, e depois de se ter criado um linha de táxis só para mulheres, criou-se um carro só para mulheres. Roídos de inveja, os judeus ultra-ortodoxos não perderam a oportunidade para imitar os seus arqui-inimigos. Criaram patrulhas de modéstia e assaltaram casas para agredir mulheres (acto honrado e heróico) por usarem “blusas vermelhas” ou por “conviverem com homens”. Por certo, blusas brancas são menos eróticas e o convívio de mulheres com mulheres é muito mais decente. Consta também que não gostam de modems de acesso à Internet e de leitores MP4 por causa dos downloads de filmes pornográficos. Será que isto nos vai contaminar? Não faltará por aí muito homem desejoso de pôr rédea curta ao mulherio.

06/10/08

Notícias do paraíso

Olhemos apenas para a edição on-line do Público. O paraíso a que se chegou está aí em todo o seu esplendor: Autoeuropa pára produção de monovolumes por quebra na procura. Quer continuar na área da economia? Maior queda sempre para o PSI-20 (índice da Bolsa de Lisboa): quase dez por cento. Esta, um pouco anterior, também não é desinteressante: Lisboa cai mais de oito por cento e liderava mais um dia negro para bolsas europeias. Mais economia? Mercados antecipam contágio de crise financeira ao resto da economia. E do mundo da política, de que feição correm os ventos para nós, pobres europeus: NATO alerta para dificuldade de travar produção de bomba nuclear iraniana. Bem-vindos ao paraíso, ao admirável mundo novo.

27/09/08

Escola centrada no aluno

Estava a almoçar num restaurante. Chega um grupo de adultos acompanhado por três crianças com idades abaixo dos quatro anos. O silêncio e a discrição que reinavam foram substituídos por um mar infinito de guinchos e gritos. As crianças, perante a complacência feliz dos adultos, exprimiam todo o seu ser, dando-nos, a nós felizes comedores, a oportunidade de partilhar a berraria da sua felicidade. De um momento para o outro, naquela sala, já só existiam as crianças. As conversas sussurradas suspenderam-se por impossibilidade prática de prosseguirem o seu rumo tranquilo. Admirável mundo novo este que prepara a criançada, desde tão tenra idade, para a escola centrada no aluno.

17/09/08

Economia da testosterona

Uma equipa de investigação da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, chegou à conclusão que o tipo de pessoa que achamos sexualmente atraente varia em conformidade com os níveis de testosterona (aqui), de cada momento. Depois de muito meditar, achei que o estudo tinha elevado potencial económico. Talvez possa mesmo vir a ser um ponto de viragem na malfadada crise económica. Poder-se-á prever o surgimento, a breve prazo, de um kit com um aferidor salivar de testosterona e as respectivas pílulas hormonais, para casos de baixa produtividade. Vale mais uma pessoa acautelar-se, não vá sentir-se atraída por alguém que, noutro pico de produção glandular, se arrependa. Não faltarão clientes.

15/09/08

A coisa está má...

Neste admirável mundo novo, se escaparmos à crise económica que aí vem, há ainda a esperança de que a humanidade não resista à pandemia da gripe das aves. Se também esta falhar, que não se desanime, pois há os furações, o degelo, enfim, o efeito estufa e o aquecimento global. Mesmo assim se a peste humana teimar em permanecer neste malquisto planeta, há sempre a solução da guerra nuclear.

06/08/08

Hiroshima

Passa hoje mais um aniversário do lançamento da bomba atómica sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Este é um acontecimento decisivo na história do homem. Não porque tenha, com o seu aparato e o infinito cortejo de mortos e doentes e segundo uma contabilidade ao mesmo tempo realista e macabra, poupado centenas de milhares de vítimas, nem porque tenha evidenciado a especial perversidade dos americanos. O que há de decisivo neste acontecimento é a constatação de que o homem, seja americano ou pigmeu, não hesitará em lançar mão daquilo que puder para alcançar os seus objectivos. Mas o acontecimento é ainda decisivo porque foi o dia em que a ciência-técnica ocidental perdeu a inocência e a aura em que estava envolvida desde a «santificação» de Galileu. Em Hiroshima, sobre um pântano de cadáveres, reinou como uma estrela brilhante essa profunda aliança entre saber e poder. Foi mais um passo, um passo decisivo, na construção do nosso admirável mundo novo.