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18/05/08

O entardecer de domingo

Tardes de domingo. São sonolentas e sombrias essas tardes onde tudo desliza para o amanhã que aí vem. Ao domingo, o tempo acaba ao fim do almoço. Depois é um penoso calvário onde o espírito deambula sem fim ou meta à vista. Há quem vá matar o tempo aqui e ali, mas o tempo já está morto, pois é domingo à tarde. Deixo-me dormitar e ando sonâmbulo pelos mundos que perpassam em mim, promessas nunca cumpridas de milhões de coisas a fazer. Reclino-me na cadeira e flutuo enquanto oiço os ruídos da casa, também eles flutuantes e desesperados pela luz que aos domingos sempre há. Se agora me levantasse e saísse, morreria às mãos dessa secreta atmosfera que, seja Inverno ou Verão, um deus maldoso desenhou para o entardecer de domingo. Ao longe, oiço um cão a latir. Tremo e um pavor de cinza cobre-me o coração. Quem virá? Apenas o dia declina, como se uma sombra quisesse esconder de mim a tarde de domingo que ainda há.

17/05/08

O vento que varre

A tarde declina com uma luz ferida por raras nuvens e na copa das árvores vê-se o vento a correr sem mansidão. Suspeito deste vento que desce da serra e fustiga o que apanha pelo caminho. Dentro dele há um mistério, um segredo que a sua voz, por vezes tão ruidosa, sempre cala. O que diz o vento? Continua a soprar na lonjura das ruas, enquanto as nuvens cavalgam indecisas pela planície azul, o céu dizem. Às vezes, mas tão poucas, suspeito que ele quer varrer tudo à sua frente, como se fosse possuído por um demónio de limpeza. Não, não pode ser, os demónios amam, todos eles, a sujidade, a porcaria, e o vento que varre parece desejar um horizonte sem mácula. Talvez o vento seja um deus ou a voz de um deus que por nós chama, talvez. Mas quem, na azáfama dos dias, ouve a sua voz?

15/05/08

O rosnar da noite

Oiço o rosnar da noite ao cair sobre as avenidas indefesas. Por lá vão homens a correr, como se a chuva fosse a metralha de um bombardeiro inimigo. Nas entranhas da terra, uiva uma matilha de lobos inquietos e esfaimados. Quando a treva chegar, sairão à procura do festim. Quando voltarem, a boca ensanguentada, a noite expirará e a aurora sorrirá no horizonte, promessa enganadora que anuncia a cordialidade da manhã. Exaustos, os lobos bocejarão antes de adormecer. A luz toma então conta do mundo e os homens retornam ao desassossego do dia, como se a luz nunca mais morresse.

13/05/08

Dúvida

Na sombra da tarde desenham-se fantasmas, almas esguias do corpo tão cansadas. Se um lençol os cobre, correm pelas ruas e incógnitos chamam por nós. Se nos voltamos, vemos as silhuetas que o sol projecta na hora que passa e ao longe ouvimos um riso suave, uma voz delida quase apagada. Fechamos os olhos e avistamos, na névoa que logo se faz, despojos de esperanças e ilusões já abandonadas. Uma tremura corre-nos então o corpo de lés-a-lés e já não sabemos se são espectros as sombras que espreitam ou se fantasmas somos apenas nós.

12/05/08

A sabedoria

Na fresta cinzenta, abre-se agora uma clareira e é nessa luz precária que vejo, por instantes, as faces dos que pela rua vão. Espectros, fantasmas, impotentes, caminham os homens em direcção ao Gólgota, mas não é a dor que afivelam no rosto, nem a suspeita do destino que lhes cabe. Vão ali apenas porque terão de ir ali e a face ressuma a ignorância que lhes permite dar mais um passo, sem que a angústia do que são lhes tome conta da alma e os faça vergar de terror. Não sabem que, mesmo no mais puro e luminoso dia, são filhos da noite. Não dessas noites onde brilham os astros, mas daquelas em que nem a estrela polar surge no horizonte. Caminham no não saber e essa é toda a sabedoria e a única felicidade.

10/05/08

A noiva jubilosa

Retorno às palavras e olho para a língua como um campo a lavrar. Há centenas de anos, agricultores silenciosos trabalham a terra, sulcam-na de lés-a-lés, lançam pequenas sementes de onde novos e novos mundos virão. A cada ano que passa, porém, é necessário retomar a charrua, carregá-la com o corpo e desenhar, mais uma vez, os traços eternos na terra. De longe, quem olha a azáfama percebe, apesar da antiguidade da faina, que os frutos são frescos e, em cada texto nascido, a língua, como as leiras de terra sempre lavradas, enche-se de vida; é sempre a noiva jubilosa que se apresenta no altar.

09/05/08

Descobrir um coração

Brilha inquieto o sol da tarde, a chuva parou, as nuvens, negras nuvens de tempestade, abrem brechas e as gentes correm avenida fora à procura do fim-de-semana. Respiro o ar morno e deixo a paisagem entrar pelos olhos e anichar-se em mim, como se eu fosse o último território onde, no desvario dos tempos, ela pudesse salvar-se. Talvez a salvação não seja mais do que isso: descobrir um coração onde se possa permanecer como se estivéssemos em casa. A casa de cada um, a moradia de cada coisa, está apenas naquele lugar a que, à falta de melhor, se dá o nome de coração. Lá repousamos – eu, tu, a folha que cai ou a pedra que rola – na esperança de que haverá no mundo, quando dele nos despedirmos, uma memória que retenha um pouco da pouca luz que se desprendeu da nossa tão súbita e inócua passagem.

22/03/08

Tudo acabará por se compor

É um tempo de trevas. A promessa da Primavera luta com denodo para se afirmar, mas os tempos de Inverno ainda se fazem sentir. Às vezes chove, outras surge aqui e ali a luz solar, a manchar de uma triste alegria as ruas que vejo da janela. A Primavera não o sabe, mas a sua precária vitória está já assegurada. O medo que ela sente dos tempos de Inverno são uma ilusão vinda de uma noite mal dormida. O seu inimigo, o único e real, ainda não o descobriu ela. Mas, nas manchas de luz, ele já se anuncia como o grande vitorioso, o Verão que virá. É nas garras agudas do calor que a Primavera entregará o espírito. Amanhã é dia de ressurreição e a natureza cantará esquecida da noite que acaba de atravessar, inconsciente daquilo que a espera. Permaneçamos em silêncio e olhemos da nossa quietude o rodar das folhas do calendário. No infinito que espreita, tudo acabará por se compor.

18/03/08

Do excesso e da carência

Espera-se demasiado da vida, mas esta está longe de poder satisfazer aquilo que o desejo ou a imaginação lhe propõem como objectivos. O mal-estar difuso, aquele de que nós portugueses padecemos, talvez não seja mais do que um sintoma do excesso. Excesso? Sim, excesso de desejo, excesso de imaginação. Mas não será quando o desejo e a imaginação se mancomunam no excesso que o grito da carência se torna mais agudo?

15/11/07

A vida simples de Miss Pearls


Na última visita a Miss Pearls, deparo-me com um post intitulado “A vida simples”. É um post simples, composto por três fotografias, das quais me apropriei, de forma indecorosa, da primeira. Esta, como as outras, não tem, em aparência, nada de especial, mas, mal entrei no blogue, o olhar ficou preso nela. Se me impunha correr por ali abaixo e ver o que por lá havia, qualquer coisa me puxava para a fotografia. Uma sensação de desconforto assaltava-me perante “a vida simples” que ali se mostrava. Não sei que rua é aquela, nem onde fica, nem quem lá mora. O mais certo é nunca ter passado por lá. No entanto, já vi e já percorri aquela rua milhares de vezes. Uma curva, a estrada empedrada, as casas brancas e já cariadas, os telhados desalinhados, o portão vermelho, as paredes salitradas, a erva a crescer pelos telhados, o cinzento das barras, as portas a cair para a estrada. Quantas vezes terei passado por sítios assim? Perscruto a fotografia como se esperasse uma ameaça. Nada acontece. Uma súbita revelação, porém, dá-se ao olhar e aquilo que se viu milhares de vezes e em milhares de sítios surge agora como uma essência depurada. Está ali tudo o que somos. O que vejo já não é aquela rua, mas o país. Um país que nos apressamos a esconder, que nos apressamos a esquecer, como se tivéssemos vergonha da simplicidade que nos instituiu, como se temêssemos a natureza que nos coube. Olho a fotografia, é um exercício de rememoração, uma ascensão ao mundo da verdade. O que ali está não é uma rua concreta, mas a ideia viva de um país que morre, que se desfaz, que se desfarela. Se, em vez de esquecer, houvesse a coragem de deixar o olhar correr por ali fora, talvez ainda fosse possível fundar alguma grandeza na mera simplicidade de uma simples vida.

03/11/07

A noite silente

Despenha-se a noite sobre a cidade, cobre-a e com desvelo espera que adormeça. Se os carros passam, a cidade agita-se e a noite silente sussurra palavras de vento até que tudo se aquiete e a cidade se esqueça.

29/10/07

A luz decai

A tarde desceu com o seu cansaço e tomou conta da cidade. Aqui e ali, abriu frestas de luz, mas tudo está já envolvido numa tonalidade triste e envergonhada, as folhas a amarelecer, a tremer ao vento, a preparar a queda que virá. Os homens passam distraídos, presos na vida que lhes calhou, apressados, os olhos fixos nas órbitas, fantasmas adiados. Ao longe, ainda há campos, o verde há muito os abandonou. São agora uma mancha de cinza sombreada pelas nuvens, um traço esquivo na parede da memória. A luz decai e eu decaio com ela, como se cair fosse o único destino que aos mortais estivesse reservado. A noite não tardará.

21/10/07

Uma noite de Verão

Cintilam ao longe as lâmpadas da noite, iluminam caminhos e terras que nem sei, deixam traços fugidios nas trevas exteriores. O manto negro que vela a terra reina despótico por onde quer que se estenda o olhar, esconde os segredos que o dia revelará, abriga, em seu seio, o ódio dos amantes desavindos. Um calor estival a tudo aquece, fustiga com o seu chicote de aço os corpos cansados, ávidos do frio que virá. Uma noite de Verão cai assim, louca e destemperada, sobre os dias que o Outono deveria dizer estes são os meus dias.

17/10/07

De caverna em caverna

Os dias declinam, mas a luz ainda é uma mancha que cobre a cidade, ateia incêndios nos telhados, faz resplandecer o verd’oiro das árvores. As gentes começam a regressar a casa, abandonam a fadiga que o dia sempre traz, escondem-se nas cavernas onde só as sombras reinam. De caverna em caverna, eis o destino que nos coube e a luz, se nos ilumina, logo fenece e se entrega aos deuses telúricos da noite. No horizonte, há manchas de sangue a pontuar as poucas nuvens que avisto. Caminho pela cidade, na esperança do silêncio, mas os gritos invadem a tarde como se, no crepúsculo que já se adivinha, carpissem o dia, à morte que será a sua ele se entrega.