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06/09/08

Gostava de estar enganado

Não tenho uma especial fé nas capacidades de Carlos Queirós como orientador de selecções seniores ou de grandes clubes. Quando foi escolhido para substituir Scolari, pensei que Portugal tinha feito uma má troca. Não é por antipatia pessoal, mas apenas por preconceito. Desconfio sempre das capacidades dos grandes treinadores das camadas jovens para assumir a liderança de equipas mais competitivas. A passagem de Queirós pelos Sporting e pelo Real Madrid não me desmentiu. No Manchester United, foi sempre adjunto. Hoje Portugal ganhou 4 – 0 a Malta. Fez o que devia e não complicou. Gostava muito de estar completamente enganado.

30/08/08

O silêncio socrático

Sócrates decidiu remeter-se ao silêncio, talvez por efeito mimético. Se a principal líder da oposição faz voto de silêncio, por que razão o chefe do governo não deveria imitá-la? Do ponto de vista táctico o jogo pode parecer virtuoso. Mas os problemas políticos do país, como a questão da segurança, não derivam do confronto entre as personalidades que apascentam os principais partidos. Eles afectam, efectivamente, os cidadãos. O chefe do governo está calado, mas toda a gente já falou, incluindo o Presidente da República e o dirigente comunista, Jerónimo Sousa. Se Sócrates não se cuida, até o secretário-geral do PCP parecerá, ao pé dele, um securitário.

29/08/08

Segurança e outros equívocos sociologizantes

Segundo o Jornal de Notícias, a criminalidade violenta, no primeiro semestre deste ano, aumentou 15% relativamente a igual período do ano passado. O problema fundamental da política de segurança encontra-se, todavia, na concepção antropológica que funda as políticas do governo. Um optimismo iluminista que acredita na bondade intrínseca do homem gerou uma série de equívocos que acabaram por dar uma real confiança aos criminosos e que têm sido lidos pela opinião pública como defesa dos que cometem crimes e desprotecção das vítimas, reais ou potenciais. Os acontecimentos deste mês e as alterações que vários protagonistas estão a exigir mostram bem a falência dos princípios antropológicos em que assentou a política governamental. Porém, o problema é mais amplo: os mesmos princípios erróneos estão a ser aplicados noutras áreas, nomeadamente na educação. E se na segurança a reacção da opinião pública tem o condão de travar o delírio das hostes governamentais, na educação a repercussão do erro só será visível daqui a alguns anos. É o que dá o sociologismo, essa obscura ideologia para-totalitária, que tomou conta do Partido Socialista.

25/08/08

O Presidente e a liberdade

Cavaco Silva tem uma difícil relação com a liberdade. Por exemplo, não hesita em promulgar uma lei de Segurança que inventa um secretário-geral nomeado pelo primeiro-ministro, sob proposta dos ministros da Administração Interna e da Justiça. Esse secretário-geral de segurança, de nomeação e confiança políticas, poderá aceder a informação criminal que apenas deveria ser conhecida pelo Ministério Pública e pela polícia de investigação criminal. Que esta possibilidade de intromissão do poder político na esfera da justiça – e a ameaça às liberdades públicas que isso pode significar – não incomode o Presidente mostra bem a consideração que Cavaco tem pela liberdade.

24/08/08

O caminho do nuclear

A crise dos preços da energia tem sido propícia para abrir caminho à opção nuclear. A tendência é para falar dessa energia de forma angelical, como se ela não contivesse ameaças efectivas que, pela sua natureza, não podem ser colocadas lado a lado com os perigos contidos noutras energias. Vale a pena meditar numa notícia do Sol sobre um incêndio de uma central na Catalunha. Refere-se também aí a um acidente ocorrido em Novembro do ano passado, “sem perigos significativos (sic) para a população”, mas que geraram a recomendação de uma multa para os gestores da central entre 9 e 22,5 milhões de euros.

22/08/08

Um mestre-escola

Vi o ministro da Administração Interna, no jornal da noite da SIC, a dar explicações sobre os problemas de segurança que assolam o país. O homem, apesar do esforço, não passa de um pobre mestre-escola demasiado pequeno para o fato que lhe talharam. Depois de se saber que o responsável pelo observatório de segurança acha que a criminalidade organizada e violenta vai aumentar, está longe de ser tranquilizante ter na pasta do Interior, era assim que se chamava antigamente e que ainda se chama noutros países, um enfatuado e vazio mestre-escola de aldeia – não passam disso muito dos nossos académicos que chegam a ministros.

A deslocalização para Santo Tirso

A criação de 1200 postos de trabalho em Santo Tirso, numa parceria entre o governo, a câmara local e a PT, pode ter aspectos positivos, mas não deixa de ser um poderoso sintoma da falência da economia, da política e da própria sociedade portuguesa. Durante anos e anos andou-se a falar da economia do conhecimento, da estratégia de Lisboa, da opção por empresas de alta tecnologia. Quando um primeiro-ministro entoa loas ao seu próprio governo por ter deslocalizado para o norte 1200 postos de trabalho de mão-de-obra barata, estamos conversados sobre o êxito das opções e das práticas económicas portuguesas.

20/08/08

Cavaco Silva aumenta a pressão

Cavaco Silva acaba de vetar o novo regime jurídico do divórcio. Independentemente das razões do veto, e algumas são pertinentes (Público), assistimos a uma escalada do conflito entre Presidente da República e o governo socialista. Muita gente iludiu-se quando Cavaco afirmou que iria cooperar estrategicamente com o governo. Mas a afirmação é muito clara. Cooperar estrategicamente significa apenas e só que se cooperará enquanto isso for rentável para os interesses próprios. Desde o princípio que Cavaco não confia no governo. Lentamente foi tecendo uma teia e, confiante na má estrela de Sócrates e com gente de confiança pessoal à frente do PSD, começa a apertar o garrote. Agora foi a lei do divórcio, como ontem foi a questão da autonomia dos Açores, como amanhã será outra coisa qualquer. Sócrates tem o que merece.

09/08/08

O castigo russo

A Rússia está a explicar ao mundo, nomeadamente ao ocidental, desde ontem, como entende e define os seus interesses e áreas de influência. Se a Geórgia se aventurou na tentativa de recuperação da Ossétia do Sul pensando que poderia contar com os ocidentais, bem pode esperar sentada. Ninguém vai mexer uma palha e muito menos enfrentar os russos por causa da propriedade de umas terras que ninguém sabe onde ficam. Mais uma vez fica claro, para os mais distraídos e dados a devaneios sobre a bondade humana, que o direito internacional – aliás, como todo o direito – assenta pura e simplesmente na correlação de forças existente. Os russos pararão quando entenderem que o castigo foi suficientemente demonstrativo do seu querer.

08/08/08

Poderes em ascensão II

Começam hoje os Jogos Olímpicos de Pequim. Mais uma vez estamos perante uma demonstração política. Se o mundo ocidental teve algumas veleidades sobre o efeito dos Jogos na abertura política da China, essas veleidades já devem ter desaparecido há muito. A China nunca leu a atribuição dos Jogos como uma forma de sedução do regime político visando uma maior democratização e respeito pelos direitos humanos. Para a China, a realização do evento é apenas a confirmação da sua força e do poderio que detém no mundo. Do Tibete às liberdades políticas, os dirigentes chineses comportaram-se sempre como se os Jogos não existissem. As olimpíadas deste ano servem para cultuar a China como uma novo deus na esfera do poder global. Devotos, convictos ou por interesse de momento, não lhe faltam.

Poderes em ascensão I

No post anterior referíamos a possibilidade de retaliação russa sobre a Geórgia. A resposta está dada. Tanques russos, segundo o DE, estão a atravessar a fronteira com a Geórgia, enquanto a aviação russa tem estado a bombardear algumas cidades. Os russos sentem que têm força suficiente para este acto, de tal forma que Putin se encontra pacificamente a assistir à abertura dos Jogos Olímpicos. Não sejamos ingénuos. O que se passa na Geórgia não é um confronto entre Tiblissi e Moscovo, causado pelos problemas da Ossétia do Sul, mas um afrontamento entre a Rússia e o mundo ocidental. Mais uma vez, os limites do ocidente estão a ser testados. Como diria Robert Kagan, a história veio para ficar e os sonhos pacifistas, com que o Ocidente se iludiu, estão a tornar-se um pesadelo.

A retaliação russa

O que se está a passar na Ossétia do Sul diz-nos respeito? Aparentemente não, mas se Putin levar adiante as medidas de retaliação contra a Geórgia e o seu governo pró-ocidental (aqui), o problema começa a bater-nos à porta. Há muito que a Rússia anda desejosa de meter na ordem alguns estados vizinhos que se bandearam para o lado ocidental. A Geórgia é um deles e parece que a oportunidade está a emergir a partir de um conflito regional já antigo. Caso a acompanhar com a devida atenção, pois mostrará como é que a Rússia interpreta os seus próprios poderes e capacidades, bem como os poderes e capacidades ocidentais.

07/08/08

Assaltos e outras diversões

É por causa destas e doutras que as pessoas se entregam ao primeiro Berlusconi que aparece. Não é que o caso, por si só, seja motivo de preocupação. O problema, porém, é que os assaltos isolados estão a tornar-se uma onde com uma dimensão apreciável. A sensação do cidadão comum é feita de percepções mais ou menos fiéis, mas o problema não está na fidelidade da percepção à realidade em si, mas no sentimento que se gera entre as pessoas. Este sentimento diz que é fácil assaltar e, mais do que isso, afirma a existência de uma certa impunidade. O que parece ser partilhado pelos assaltantes, que multiplicam as acções. Mesmo pessoas menos dadas a alarmismos, quando pensam que as pastas da Justiça e da Administração Interna estão entregues às eminências que as ocupam, não conseguem evitar uma sensação de profunda preocupação.

05/08/08

O atentado na China

O atentado de ontem contra polícias chineses vem mostrar, a confirmar-se a sua origem num movimento islâmico, pelo menos duas coisas. Por um lado, o Islão é uma fonte inesgotável de conflitos. Em muitos dos conflitos que percorrem o planeta, encontramos no seu cerne uma inspiração islâmica. Por outro, fica-se a perceber que qualquer abertura democrática da China irá conduzir a um conjunto de explosões e de reivindicações secessionistas, as quais estamos muito longe de poder imaginar e de pressentir os efeitos. Toda a retórica ocidental sobre a democracia e os direitos humanos repousa na certeza de que isso não comoverá os dirigentes chineses e que, resguardos na sua acção política, podemos dormir um pouco mais descansados.

30/07/08

Um ódio popular aos professores

Num comentário (às 18h12 de hoje) a uma notícia do Público, um leitor insurgia-se contra o facto de os professores terem acesso a um computador por 150 € e uma ligação móvel à internet com um desconto de 5 € mensais. É muito curiosa a relação que os portugueses têm com os professores. Qualquer quadro de uma empresa tem um computador topo de gama e um conjunto de regalias de acordo com o seu estatuto na organização. Mas um professor, para a generalidade dos portugueses, é um caso especial, pois tem o dever de pagar os instrumentos de trabalho. Isto não é apenas ignorância, mas um ódio visceral a uma profissão, ódio esse que denota o desprezo que os portugueses têm pelo saber e por quem o distribui.

25/07/08

O parecer de Freitas do Amaral

Diogo Freitas do Amaral já emitiu o seu parecer e “considera válidas a suspensão de dois anos a Pinto da Costa e a despromoção do Boavista” (Sol). O ex-presidente do CDS vai descobrir as múltiplas artimanhas que vão surgir para desfazer a sua credibilidade de jurista. Há poderes fácticos que são, neste país, intocáveis. Freitas deveria sabê-lo. Por isso, há qualquer coisa de arrojado na aceitação da encomenda do presidente da FPF. Veremos qual o seguimento de mais uma novela jurídica, agora no futebol.

24/07/08

Liberalismo à portuguesa

Segundo um estudo da DECO (Público), os medicamentos não sujeitos a receita médica já aumentaram 5,2% desde 2005, altura em que passaram também a ser vendidos fora das farmácias. Houve mesmo um medicamento que subiu 45%. Contrariamente ao que prometeu o governo, a liberalização da venda destes medicamentos não trouxe uma baixa de preços. Pelo contrário. Há uma coisa que parece clara: Portugal é um excelente lugar para perceber que as teorias liberais estão longe de ter valor universal. Não é por acaso que o povo português desconfia sempre que se fala de liberalização. Ele sabe que essa liberalização vai ser paga por ele. A hipotética eficiência do mercado raramente favorece o consumidor.

21/07/08

Caso Maddie, uma tristeza

Para além da dor que todos partilhamos pelo destino – um destino invisível – de uma criança, o caso Maddie acrescenta uma outra dor a todos os portugueses. Se preciso fosse uma prova, este caso mostrou à saciedade a nossa natureza provinciana e que, entre o Ultimato britânico de 1890 e este caso, nada mudou no contexto das relações internacionais. Os ingleses, talvez com razão, tratam-nos como se fôssemos menores e não merecêssemos a consideração devida a gente autónoma. O caso foi arquivado, o que não se pode arquivar é a triste forma como tudo foi conduzido desde a primeira hora e a sensação de medo e de subserviência que todos pressentimos ter existido por cá. Uma tristeza.

Notícias da China

Da China sabe-se muito pouco. O regime de partido único e o controlo da informação não deixa perceber as clivagens que atravessam a sociedade chinesa. Mas as duas explosões que aconteceram hoje em autocarros deixam entrever uma realidade não muito celestial (Público). Difícil será ver, nestas explosões e na morte de gente inocente, a mão dos amantes da liberdade e da democracia. A China é, muito provavelmente, uma panela de pressão cujo conteúdo estará em ebulição. Se a tampa for subitamente retirada não se sabe muito bem qual será a dimensão dos estragos que inevitavelmente acontecerão.

20/07/08

Um retrato do país em 3 primeiras páginas

Na primeira página do Público noticiava-se “trabalho infantil para empresa que produz roupa para a Zara”. Por seu turno, o Diário de Notícias chamava para manchete “classe média já pede comida por e-mail para as misericórdias”. A miséria une ambas as manchetes. Na sexta-feira passada, Vasco Pulido Valente escrevia: «Numa sociedade miserável, o que se redistribui é sempre a miséria». Esta é a essência da sociedade que conseguimos construir com os dinheiros vindos da Europa. Uma sociedade miserável, que reproduz miséria e que distribui miséria. Talvez na primeira página do Jornal de Notícias se encontre uma pista ou um sinal do problema: «Inspecção arrasa gestão hospitalar».