
36 - Gustav Klimt - Desenho
Trinta e seis
Adormece
tão leve e
tão descuidada...
O sono
lhe foi trazido
pelo cuidado
de ser amada.
Jorge Carreira Maia, Sobre pintura e desenho de Gustav Klimt, 2008
A União Europeia promete aos Sérvios, se eles se portarem bem nas eleições, a entrada para o paraíso, isto é, para União. Portugal deveria opor-se ferozmente. Já basta de humilhações. Entram os sérvios e, passados dois ou três anos, lá vem a notícia de que Portugal acaba de ser ultrapassado pela Sérvia na corrida para atingir a média do PIB europeu. Ó que falta faz o direito de veto.
O Público descobriu hoje que os 170 mil alunos que chumbaram o ano lectivo transacto custaram ao erário público mais de 600 milhões de euros. Não há nada melhor do que a economia para perverter uma discussão racional sobre aquilo que se chama, na linguagem de pau da nomenclatura educativa, insucesso escolar. Aliás, foi a ministra que enveredou há dias por esse caminho. Não é que o custo económico seja despiciendo, não o é. Mas o problema é mais complexo mesmo ao nível económico. Não são apenas os 600 milhões que se perdem. É o impacto negativo na capacidade de gerar riqueza futura por parte desses alunos. Mas o problema não é só destes. É também daqueles que passam e não deviam (são provavelmente muitos mais) e os que sairão das novas oportunidades em que se transformou uma parte da educação em Portugal. Esta perda é ainda maior e mais dramática, mas como não é contabilizável ninguém fala dela.
Interessante é a tomada de posição da hipotética candidata socialista à câmara do Porto, Elisa Ferreira, sobre as eleições no PSD. Vem fazer uma espécie de aviso para a plebe laranja: cuidado, se ganha a Ferreira Leite lá se vai a regionalização. A actual eurodeputada socialista é mulher inteligente e sabe que o poviléu militante dos dois grandes partidos anda ansioso pelo aumento dos cargos políticos, sinecuras e prebendas que uma maior distribuição do poder acarretará. Pessoalmente, estou dividido: o meu coração não é contra as regiões. A razão, porém, depois de olhar para a experiência do poder local, leva-me a desconfiar da bondade que se esconde nos movimentos regionalistas. Por outro lado, raramente consigo gostar dos políticos que gostam da regionalização. Seja como for, Elisa Ferreira jogou bem. Num partido como o PSD não é bom o líder ser não regionalista. Mas jogou bem também porque o PS tem todo o interesse que não seja Ferreira Leite que ganhe o partido. Sócrates fica mais à vontade.
Beautiful Century is a beautiful blog. Não é um blogue de origem anglo-saxónica, apesar de ser escrito
Aquela história de um bando de marginais que entra numa esquadra para bater num cidadão que apresentava uma queixa e encontra pela frente apenas, para além do queixoso, um pobre e desamparado polícia é mais um sintoma da doença que corrói os fundamentos do estado democrático. As elites políticas estão convencidas de que o regime está seguro devido à pertença à União Europeia. No entanto, os tempos não permanecem idênticos para sempre e o desespero da insegurança pode não ser um bom conselheiro relativamente ao respeito pelo regime parlamentar. Há uma espécie de trabalho de sapa das instituições e uma impotência política generalizada. Não são só os generais que se sentem desconfortáveis.
Num editorial de hoje do Diário Económico, Pedro Marques Pereira chama a atenção para o nosso empobrecimento contínuo. A Estónia e a Eslováquia ultrapassar-nos-ão, no ano que vem, em riqueza produzida por habitante. Fazíamos há anos parte de um clube semi-desenvolvido que integrava a Espanha, a Grécia e a Irlanda. Hoje a Grécia tem um PIB de 90% da média europeia, a Espanha de 93% e a pobre Irlanda apresenta um PIB 30% superior à referida média. Em Portugal o PIB é de 66% dessa média. Atrás de nós, em breve, apenas estarão a Bulgária e a Roménia.
Noticia a Lusa que foi desmantelada uma rede luso-espanhola que explorava portugueses em situação de escravatura. Os portugueses pertenciam a famílias da zona do Porto, de baixa escolaridade e com problemas de droga e de álcool. Os salários que lhes eram pagos rondavam os 700 euros, mas eles não tinham acesso à conta bancária que era gerida pelos “contratadores”. Este tipo de crime parece estar a tornar-se comum. Mas por detrás dele existe uma realidade política, social e económica que não deixa de ser uma peça importante na compreensão destes fenómenos.
Raramente, mas muito raramente, vasculho no lixo do email, lixo que recebo às dezenas nas várias caixas do correio. Mas neste caso o assunto chamou-me a atenção e resolvi abrir. Eis uma espécie de “Novas Oportunidades” globalizado, ainda mais eficaz e prometedor, sem aborrecimentos ou perda de tempo:We can assist with Diplomas from prestigious universities based on your present knowledge and Life Experience. No required examination, tests, classes, books, or interviews. Bacheelor, MasteerMBA, and Doctoraate diplomas available in the field of your choice - that's right, you can become a Doctor and receive all the benefits that comes with it. Diploma/Certificate Valid in all countries.
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Depois seguia-se um número de telefone. Decidi copiar o texto antes de apagar definitivamente aquele lixo.

No último Jornal Torrejano, Jorge Salgado Simões escrevia na sua rubrica sobre o retorno da fome (ver aqui). Hoje, o Público dá um largo espaço ao problema, publicando o dossiê que vale a pena ler e guardar. A questão não está apenas no retorno em força de um problema que, para nós ocidentais, era coisa do quarto mundo. O problema é também de carácter moral: os êxitos conseguidos no desenvolvimento da ciência técnica e o desinteresse em resolver os problemas, como a fome, que afectam parte significativa da humanidade. Aqui também se pode perceber o que é a mercantilização da ciência e o abandono do Estado da área da investigação, ou a sua submissão às lógicas do mercado. Este visa o interesse daqueles que detém o capital das empresas. Mas há um outro interesse muito mais fundo, que é o interesse geral da humanidade em si mesma. Este interesse só pode ser defendido pelos Estados, se não abandonarem, como o estão a fazer, os homens à sua sorte.
Não é difícil perceber por que motivo tem o PSD tanta dificuldade em arranjar um líder. Mas ele, como muito bem viu WEHAVEKAOSINTHEGARDEN, lá está feliz e sorridente, bem no centro da família. Não destoa.
As eleições no PSD estão à beira de uma guerra civil. Por um lado, temos a representante das elites bem pensantes, Manuela Ferreira Leite. Por outro, há esse imenso poviléu, constituído por verdadeiros sans coulotte, que é aquilo a que, na linguagem do partido, se chama as bases. Agora parece que um condottiero destemido está pronto a fazer frente à aristocracia da laranja: Alberto João Jardim. Segundo o Público, o líder madeirense dispõem-se a enfrentar a cruel cabeça da reacção aristocrática, Manuela Ferreira Leite, caso todos os outros, aqui inclui-se Santana Lopes, estejam dispostos a desistir . Teremos assim, no PPD/PSD, uma verdadeira Frente Popular. A imensa personagem histórica vinda da Madeira combinará os traços frentistas da esquerda pós II Guerra com o radicalismo jacobino-burguês da Revolução Francesa. Em breve, veremos Alberto João Jardim em “pantallon”, “carmagnole”, barrete frígio e “sabots” com uma bandeira vermelha na mão. Resta saber qual o papel que se atribui: Danton, Marat ou Robespierre? Seja qual for, o futuro não parece brilhante, mas em Portugal nunca se sabe.

A recontagem de votos no Zimbabué confirma a derrota de Robert Mugabe e a vitória da oposição. Aquando da independência, em 1980, o Zimbabué, antiga Rodésia, parecia ter todas as potencialidades para ser um caso exemplar na África Negra. A radicalização, porém, de Robert Mugabe e a sua manutenção, desde 1980, no poder transformaram uma zona rica e próspera no país com a maior taxe de inflação do mundo (especialistas apontam para 100 000%). A política inicial de colaboração com os colonos brancos foi sendo substituída, ao longo dos tempos, por medidas arbitrárias e de perseguição racial. As eleições decorreram num país com uma economia completamente devastada pelo delírio ideológico de Mugabe. Veremos o que vai acontecer, como o partido de Mugabe e o próprio vão aceitar os resultados eleitorais e se vão comportar.
Graças ao A Educação do meu Umbigo fui até à edição on-line e em inglês do Der Spiegel (ler aqui). Os alemães, que se afastam da vida política tradicional, estão a descobrir o referendo como estratégia para pôr em causa muitas decisões de carácter político. Este caminho começa a tornar a vida difícil para os políticos e para a comunidade empresarial.
O Presidente da República, no discurso do 25 de Abril, disse que “vender ilusões não é seguramente a melhor forma de fortalecer o imprescindível clima de confiança que deve existir entre os cidadãos e a classe política”. Estamos de acordo. Mas quem foi o primeiro-ministro que mais ilusões vendeu ao país? Em que consulado mais se fez crer numa vida fácil e na aproximação ao “pelotão da frente”? Quanto dinheiro jorrou da CEE e se desperdiçou nos tempos do primeiro-ministro Cavaco Silva? Que ilusões foram vendidas para que alcançasse a segunda maioria absoluta?
Pode o ministro da Administração Interna jurar que o país vive em segurança. As pessoas tendem a não acreditar. Segundo o Público, “se aos crimes praticados nas moradias se somarem os praticados, pelos mesmos métodos, em edifícios comerciais e industriais, então conclui-se que as polícias foram chamadas a investigar estes delitos mais de 100 vezes em cada 24 horas”. Cem assaltos diários, uma média anual de 36 500. Esta “pequena” criminalidade disseminada por todo o lado constrói um sentimento de insegurança partilhado em rede por todo o país. É este sentimento que ajuda, também ele, a fomentar o espírito de descrença nas instituições democráticas.
O Presidente da República mostrou-se impressionado com a ignorância dos jovens acerca do 25 de Abril. Mas a coisa valerá assim tanto espanto? Para além da natureza tendencialmente ignorante dos jovens nas nossas culturas (sim, nas nossas, naquelas culturas que vivem da retórica da inovação, nas culturas cujas formas de vida implicam a separação e o conflito entre gerações), também a natureza política do acontecimento lhe rouba o prestígio que deveria ter. Que interesse terão as novas gerações por um acontecimento político, se a política que eles sentem (eles apenas sentem) é a tristeza e a desilusão que é? Que interesse poderá ter pelo passado histórico uma geração que pressente que não tem futuro nem lugar na história?
Há coisas estranhas neste país. Uma delas é o prestígio intelectual de João Carlos Espada. Para além de um conjunto de frases inócuas sobre a gentlemanship e o louvor de Karl Popper, o Professor Espada entretêm-se, na sua coluna no Expresso, a debitar uma ideias edificantes e insípidas sobre a moral e a política. Nada que faça mal ao mundo. Onde se revela a sua estatura intelectual, porém, é no ódio a dois dos grandes pensadores do Ocidente, Platão e Nietzsche. Na coluna de hoje, depois de perorar, no seu estilo habitual, sobre a relação entre fé e política nos EUA, resolve dar lições à esquerda e à direita. À direita diz: “seria melhor confiar menos em reaccionários antidemocratas como Platão e ouvir mais Edmund Burke Winston Churcill”. Ora, como é evidente, aquilo que nós mais vemos é a direita a estudar e a fundar-se em Platão. Um intelectual com um mínimo de profundidade não diz disparates destes. O termo reaccionário é inaplicável a Platão, é um anacronismo. E que democracia era aquela a que se opunha Platão? Era uma espécie de democracia popular e directa, fundada num amplo grau de exclusão cívica, que estava em acelerado grau de decadência e de corrupção. Platão e Nietzsche, para desgosto do Professor Espada, são as figuras cimeiras do pensamento ocidental. O seu pensamento político é estranho para o pequeno burguês citadino? De certa maneira, mas a grandeza destes homens reside no facto de terem pensado muito para lá da política. Mais, talvez a política, incluindo a democrática, só possa ser pensada na sombra destas obras maiores. Parece que em Portugal compensa dizer disparates e falar com leviandade inaudita sobre aquilo que não se conhece ou não se compreende. Bom, vou continuar a minha leitura do Teeteto de Platão, na tradução da Gulbenkian.A tradição da liberdade em Portugal está ligada a este momento. Por muito que os caminhos, posteriormente, se tenham desviado, esta primeira hora continha um potencial enorme de liberdade que, ao longo destes anos, se foi mantendo e tornando adulta, apesar de certos tiques que, aqui e ali, têm despontado. Valeu a pena? Mesmo que a alma fosse pequena teria valido infinitamente a pena.
Afinal Alberto João Jardim ainda não pôs completamente de parte uma candidatura à presidência do PSD e Santana Lopes, como se esperava, está mais uma vez disponível para o combate. O PSD sempre foi assim, um partido cheio de gente disponível para se candidatar, seja lá por que motivo for. Não falta gente por ali que se acha capaz de mandar na agremiação e, por milagre, pôr a mão no poder. A experiência de Santana Lopes na Câmara de Lisboa e no governo não molestou a fé dos adeptos na sua capacidade para governar e, descobre-se agora, Alberto João Jardim já não é aquele político incómodo, que diz umas larachas para irritar a esquerda, mas que toda a gente acha que está muito bem longe, na Madeira.
A propósito da possível candidatura de Alberto João Jardim, logo se verá se ela sai ou não, não nos esqueçamos de ler este excerto de Michel Foucault: «O terror ubuesco, a soberania grotesca ou, em termos mais austeros, a maximização dos efeitos do poder a partir da desqualificação de quem os produz: isso, creio eu, não é um acidente na história do poder, não é uma falha mecânica. Parece-me que é uma das engrenagens que são parte inerente dos mecanismos do poder. O poder político, pelo menos em certas sociedades, em todo caso na nossa, pode atribuir-se, e efectivamente atribuiu-se, a possibilidade de transmitir os seus efeitos, e muito mais que isso, de encontrar a origem dos seus efeitos num canto que é manifestamente, explicitamente, voluntariamente desqualificado pelo odioso, pelo infame, pelo ridículo» (retirado daqui). Será que o meu amigo Câmara Leme vai ter um amplo espaço de investigação sobre a Alethurgia e o Poder Ubuesco (ver aqui)?Uma descoberta recente, Francis Lemarque. Esta Paris aqui cantada, apesar de nunca a ter conhecido, é a minha Paris. Ela nunca existiu a não ser na imaginação de milhões de não parisienses que julgavam ser lá o centro do mundo. Não era, mas deveria ser. E estaríamos lá todos a conversar com o Sartre e o Camus, a ouvir a Gréco e os mais antigos como a Piaf, este Lemarque, o Bourvil, o Montand, eu sei lá... Ainda hoje o acordeão parisiense me amolece o coração. Para não falar de certas fotografias de Robert Doisneau. Estou irremediavelmente velho.
A Paris Francis Lemarque
Colocado por utopike13
Uma criança de 11 anos, numa escola do Barreiro, decidiu dar um pontapé numa professora. Diz a senhora ministra da educação: “Evidentemente que são casos dramáticos, mas temos de ter consciência de que são casos isolados e não representam a generalidade do comportamento dos nossos alunos.” Vejamos como funciona a linguagem da senhora ministra. Começa por adjectivar de forma hiperbólica o acontecimento. É evidente, porém, que não estamos perante um caso dramático, mas apenas de uma cena de indisciplina. Mas a hiperbolização do caso só serve, na estratégia da senhora ministra, para ocultar aquilo que a senhora não quer ver nem quer que os portugueses vejam: a indisciplina de uma parte significativa dos alunos.
Discute-se e aprova-se hoje a disfarçada constituição europeia. Sem brilho, às escondidas do povo. Sócrates incha de orgulho e destaca, na linguagem oca que o caracteriza, o “grande consenso político e social em torno de Tratado de Lisboa”. Não sou particularmente adepto do instituto do referendo, mas em caso de transferências de soberania só o legítimo detentor da soberania, o povo, pode autorizar essa transferência. Por essa Europa fora, a palavra deveria ter-lhe sido dada. A forma como a decisão está a ser tomada mostra bem o estado da doença europeia. As elites políticas e económicas não confiam no julgamento popular. Decidiram, com óbvia má-fé, usurpar o poder. A decisão que o parlamento português, como outros, tomou é um prenúncio da pouco importância que a democracia já tem no mundo novo em que vivemos. A democracia está moribunda. Sucumbirá sob a mão de interesses obscuros e poderes fácticos, com a óbvia conivência de uma elite política irresponsável e, passe o pathos da palavra, traidora. Sócrates ri, enlevado pelo nome do tratado e pela astúcia da diplomacia portuguesa, pela sua manha, que julga ele ser génio político. Que este tratado diminua o papel de Portugal na Europa e seja, na sua aprovação, um golpe na vida democrática é, para ele, irrelevante. O seu nomezinho lá ficará na história. Mas em que lugar da história não o sabe ele e os tempos são caprichosos. 
Dalva de Oliveira. Sabe-se lá por quê, comecei a gostar, faz tempo, deste tipo de coisas. O nome de Dalva de Oliveira tinha-me chegado, há muitos anos, numa canção cantada por Maria Bethânia, já não sei em que álbum. Mas nunca tinha ouvido a Dalva ela mesma. Um dia, tropecei com o nome e mandei vir dois cd's dela do Brasil. Fiquei adepto. Aqui, numa gravação pré-histórica.
A ministra diz que em Portugal há demasiados chumbos. O matemático e divulgador que o essencial é não passar de grau sem ter aprendido o essencial. Deve ser difícil encontrar duas entrevistas mais contrastantes sobre como se deve ensinar e sobre o que é um bom sistema de Educação do que as que deram, no mesmo dia - domingo passado - a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, ao Correio da Manhã, e o presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, Nuno Crato, ao PÚBLICO.O que é que foi sublinhado pelo Correio da Manhã de tudo o que a ministra disse? Que esta acha que em Portugal há demasiados chumbos. Tantos chumbos que até lhe estragam as estatísticas: "Se considerarmos na amostra os alunos que não repetem, os alunos que estão no ciclo adequado à sua idade têm valores iguais à média dos países da OCDE." É difícil perceber como é que a ministra chegou a esta conclusão, mas tomando os dados da Matemática do Estudo PISA 2003 e realizando algumas contas simples chega-se à conclusão que isso significaria que os repetentes teriam nessa prova uma média sensivelmente igual a metade da média dos não repetentes, o que parece exagerado como índice de fracasso. Mas, se não for, então é imensamente preocupante, pois revela que o nosso sistema de ensino deixa para trás, e em péssimas condições, demasiados alunos.
Estamos em maré de obituário. Agora foi a vez de Francisco Martins Rodrigues. Morreu esta manhã a principal figura das correntes marxistas-leninistas. Martins Rodrigues era, no início dos anos 60, uma das personagens mais eminentes do Comité Central do Partido Comunista Português. Com a cisão, no campo do comunismo internacional, entre russos e chineses, após a morte de Estaline, Martins Rodrigues foi a face portuguesa da tendência pró-chinesa. Abandonou o PCP em 1963 e fundou com João Pulido Valente, em 1964, o CMLP (Comité Marxista-Leninista Português). Este grupo origina os múltiplos grupos ml que enxameiam a universidade portuguesa nos anos 70 e que, após o 25 de Abril, vão originar a UDP e o denominado PCP-R. Martins Rodrigues, devido a um comportamento mais frágil perante a polícia política na sua última prisão, nunca surge como figura de primeiro plano político, mas durante muitos anos é ele o ideólogo e o estratega do campo político a que pertencia. A sua influência no PREC é muito maior do que se pode pensar. Quem, como eu, passou nos anos 70 por essa área política, sabe bem a forma reverencial como, na altura, era tido o nome, quase sagrado, de Francisco Martins. A sua morte vem já num tempo em que os delírios marxistas-leninistas-maoístas estão definitivamente mortos, felizmente.
Manuela Ferreira Leite apresentou a sua candidatura à presidência do PSD. Caso as incensadas bases estejam para aí viradas, o mau tempo aproxima-se do arquipélago socratista. Não é que Ferreira Leite ganhe as eleições, mas tem um perfil de seriedade que vai conseguir estancar a fuga do eleitorado conservador para o PS e tem muitas hipóteses de reduzir a vitória de Sócrates a uma minoria periclitante. Sócrates bem pode agora rastejar para a esquerda e lambujar as botas do eleitorado que votou nele e que ele desprezou, maltratou e ofendeu publicamente, convencido de que a direita lhe caía aos pés. Essa direita tem agora uma personagem com a credibilidade profissional e académica que Sócrates não tem e isso, para a direita, é muito importante. Cavaco no silêncio faz contas e espera que lá para meados da próxima legislativa, senão antes, convocar novas eleições e pôr no governo a sua gente. Talvez Santana Lopes ou Menezes salvem Sócrates, pensam agora, em jeito de oração, os «spin doctors» socialistas.
Corre o boato de que Santana Lopes está a consultar as hostes pessoais para uma eventual candidatura à direcção do PSD. O homem julga-se tocado pelos deuses e, por isso, terá um destino à espera em S. Bento ou talvez em Belém. Num país normal, a experiência de Santana Lopes como primeiro-ministro era o suficiente para o mandar para a reforma e nunca mais se ouvir falar da sua pessoa. Cá, pelo contrário, a eminência foi vítima da incompreensão do mundo e da má vontade de Sampaio e Cavaco. No PSD, o ridículo e o absurdo são infinitos e lá está o pobre do Santana a fazer aquecimento.
União de Leiria 4 Sporting 1; Porto 2 Benfica 0. O Benfica, como se sabe, habituou-se a perder, uma pessoa já nem estranha. O Sporting, depois daquela reviravolta contra o Benfica, voltou à sua essência. Levou 4 da extraordinária União de Leiria. Sigam, Benfica e Sporting, o meu conselho e a lição política do Dr. Júdice: vão se fundir. Talvez me faça sócio do Segunda Circular, se tiver teatro amador e passeios ao Domingo.Não seria a isto que deveríamos chamar, em tempos, "nacional-cançonetismo"?
CHARLES TRENET - DOUCE FRANCE
Colocado por Francis-Albert
Nós já sabíamos, mas agora fomos informados por José Miguel Júdice que o PS é um partido de direita (aqui). Neste blogue, há muito que se sabe que o líder natural do PSD é José Sócrates, mas nunca pensámos que uma tão eminente personagem partilhasse da mesma opinião. Portanto, segundo a douta e judiciosa opinião de Júdice deveriam fundir-se, o PSD e o PS, num único partido de direita. Para quê? Ele não explica, mas eu julgo que sei: talvez para f****, quero dizer: para fundir os portugueses. As voltas que a vida dá.
Já está disponível aqui a entrevista concedida pela Ministra da Educação ao Correio da Manhã. A subserviência do jornalista chega a dar vómitos. Nem a confissão de parcialidade o salva. Os professores deveriam ler a entrevista com toda a atenção e perceberem o que os espera. Os pais também não fariam mal em tentar perceber o que vai acontecer aos seus filhos. Para isso deveriam saber ler o que se esconde por detrás de cada uma das frases, mas isso talvez seja pedir demasiado.
A senhora ministra da educação terá dito, numa entrevista publicada hoje no Correio da Manhã (versão papel), “os chumbos são uma forma de facilitismo para resolver os problemas dos alunos com dificuldades, porque os deixa entregues a si mesmos.” (ver resumo aqui) Mais uma vez a ministra atira para cima dos professores o ónus da situação. A existência de uma cultura anti-escolar por parte de muitos alunos e respectivas famílias, as medidas absolutamente delirantes dos múltiplos gabinetes ministeriais, os currículos desadequados a muitos alunos, nada disso tem importância. A única coisa que interessa é atingir, mais uma vez e de forma sórdida, a honorabilidade dos professores. A senhora ministra, mal sai do controlo dos “spin doctores” partidários e fica entregue a si mesma, mostra bem a quem se dirige o seu ódio de estimação. Mas, como nas sociedades totalitárias, não resiste a perverter a linguagem. O facilitismo é agora “chumbar” alunos. Passá-los sem saberem nada, apesar de esforços desperados de muitos professores, isso não é facilitismo. Isso é ser um excepcional professor. Quantos alunos, no ISCTE, terá a senhora ministra, enquanto professora, abandonado à sua sorte? 
Uma lição de demagogia construída sobre indicadores e resultados estatísticos correctos (ler com atenção no Sol). As opiniões de Maria de Lurdes Rodrigues sobre as Novas Oportunidades são um dos indicadores mais firmes da irrelevância que para este governo tem uma aprendizagem séria e consolidada. Não há nada a fazer. Entre a classe política e aqueles que exigem seriedade na vida pública e na escola há um abismo intransponível.
Foi anunciada hoje a morte do Cónego Melo, uma das figuras centrais dos sectores mais conservadores da Igreja Católica. O cónego bracarense está associado à resistência ao crescimento das forças políticas de orientação marxista no Verão quente de 1975. Houve tentativas de o associar ao atentado bombista que vitimou o padre Max e a estudante Maria de Lurdes, mas a justiça nunca confirmou a suposição. Inexoravelmente, os protagonistas daquele agitado período histórico desaparecem, como se isso fosse necessário para comprovar que os tempos são definitivamente outros.
Os partidos políticos são lugares de tresloucamento, imagens seguras da demência da espécie que nos coube em sorte. Em Portugal, o mais tresloucado desses partidos, logo o mais especificamente humano, é o PSD. Ali não há quem não se julgue à altura de manejar a vara e conduzir a manada. Não bastou Santana Lopes, não bastou ou bastava Luís Filipe Menezes, agora aparece uma chusma de candidatos a líder da sagrada corporação. Aguiar Branco, Passos Coelhos, Patinha Antão. Tudo gente com um extraordinário currículo político, gente que faz o favor de se dispor a tomar conta da casa e, se a fortuna estiver para aí voltada, a pôr a pátria em ordem segundo as excelsas ideias que habitam naquelas cabeças. São estratégias, dir-me-ão. Claro, em Portugal sempre se chamou ideia a uma vaga noção e estratégia a pequenas, miseráveis e patéticas manobras tácticas.
Não, não é do PSD que falava Pacheco Pereira na sua crónica na revista Sábado. Falava dos sindicatos dos professores e do acordo ou entendimento, como preferir segundo a orientação semântica ou partidária, com o Ministério da Educação. Estariam os sindicatos num beco sem saída provocado pela grande manifestação de 8 de Março e, por isso, precisavam de chegar a um acordo. Mas o governo, por questões eleitorais, também precisava de um acordo. E conclui Pacheco Pereira: “Foi por isso que, de repente, se chegou a um acordo que, pelos vistos, os “professores”, citados pelos jornais, entendem como uma derrota e não como a “grande vitória”. Percebe-se porquê: os professores que se manifestavam não queriam, na sua esmagadora maioria, nenhuma avaliação de desempenho, e vai continuar a haver avaliação.